Cantora segue com a turnê do novo disco,The Idler Wheel..., após prisão no Texas
*Matéria originalmente publicada no site da revista Rolling Stone Brasil.
"Não existe publicidade ruim", diz o ditado popular. Mas justificar a atenção recebida após um escândalo não é uma tarefa fácil - a não ser que a protagonista seja Fiona Apple. No dia 19 de setembro, a cantora voltou aos noticiários após ser presa por posse de haxixe e maconha, em uma cidade no Texas. Apesar de ter a fiança paga rapidamente para continuar a turnê do disco The Idler Wheel..., o fato rendeu mais algumas manchetes: acusações de abuso por parte da polícia durante sua prisão e o pedido público de desculpas aos fãs em um show em Nova Orleans. Mas ao subir ao palco do Jackie Gleason Theater no último domingo, 30, em Miami Beach, Fiona mostrou que o episódio polêmico ficou para trás.
Ao dar mais atenção às músicas de seu novo álbum (lançado em junho deste ano) e de When The Pawn... no repertório, Apple se deu o luxo de deixar de fora "Criminal" – seu maior hit - e sentar poucas vezes ao piano, concentrando-se apenas em cantar e tocar algumas percussões no centro do palco. Logicamente, os fãs devotados que lotaram o teatro para ver o show não reclamaram.
Às 20h15, o guitarrista Blake Mills subiu ao palco para iniciar o show de abertura. Integrante da banda de apoio de Fiona, o músico é dono um currículo extenso, incluindo colaborações com artistas como Norah Jones, Julian Casablancas, Band of Horses e até mesmo Kid Rock. Ao iniciar seu set de maneira intimista, acompanhado apenas da própria guitarra, Mills avisou que o baixista Sebastian Steinberg, a baterista Amy Wood e o tecladista Zac Rae subiriam ao palco ao longo das canções. A apresentação de quase 40 minutos contou com sete números, incluindo material de seu disco Break Mirrors e músicas novas, como a country "Don't Tell All Your Friends About Me".
Às 21h24 a banda voltou ao palco, desta vez com Fiona Apple. Os trajes brancos e a luz excessivamente clara ressaltavam a silhueta franzina da cantora, conferindo a ela uma aparência quase fantasmagórica. Mas contagiada pelo ritmo urgente de "Fast As You Can", Fiona não se manteve estática e logo arriscou saltos e trejeitos erráticos segurando o pedestal do microfone. Na sequência, assumiu o piano para uma versão pesada de "On The Bound", com maior destaque para a guitarra de Blake, que arriscava solos quando Apple não rasgava sua voz no refrão "você é tudo que eu preciso".
O hit "Shadowboxer" veio em seguida e foi ovacionado conforme a cantora tocava as primeiras notas no piano. A canção contou com um momento catártico para o público, que cantava o refrão em coro. O entusiasmo da plateia foi emendado em outra faixa preferida dos fãs: "Paper Bag". A partir daí, eram recorrentes gritos exagerados como "você é linda" e "Fiona, eu te amo" durante as músicas.
"Sleep to Dream" surgiu calma, mas aos poucos preparou o clima para que Fiona desse início aos seus momentos performáticos, com espasmos e movimentos frenéticos enquanto permanecia sentada no chão. A singela "Extraordinary Machine" veio em seguida, como se aparecesse estrategicamente no setlist para aquietar os ânimos da cantora.
Mas a calmaria não durou muito; o caráter quase psicótico de Fiona voltou à tona após uma interpretação intensa de "I Know". Ajoelhada e de cabeça baixa, a cantora introduziu "Tymps (the Sick in the Head Song)" trocando berros instigantes com seu baixista. Ao vivo, a canção ganhou uma versão estendida com um crescendo que serviu de trilha para mais uma 'sessão de descarrego' da artista, que quase desmontou um pedestal enquanto era refém da própria agitação. Na sequência, veio a serena "Every Single Night" - mais um número calmo para sossegar os nervos.
"Not About Love" foi o ponto alto da apresentação. Tocada com um peso que ressaltou as pausas repentinas da composição, o suspense logo deu lugar a pequenas improvisações, que foram a deixa para que a guitarra de Mills brilhasse à vontade.
Depois do momento mais roqueiro da noite, o tranquilo cover de "It’s Only Make Believe" (de Conway Twitty) surgiu em clima de redenção. Ao final, Apple foi ao microfone para se despedir do público, sem bis. "Muito obrigada, tivemos uma noite maravilhosa." Saiu saltitando do palco rumo aos bastidores, como se encarnasse uma bailarina desengonçada.
Veja abaixo o set list da apresentação:
"Fast As You Can"
"On The Bound"
"Shadowboxer"
"Paper Bag"
"Anything We Want"
"Get Gone"
"Periphery"
"Sleep To Dream"
"Extraordinary Machine"
"Werewolf"
"Left Alone"
"I Know"
"Tymps"
"Every Single Night"
"Daredevil"
"Not About Love"
"It’s Only Make Believe"
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quarta-feira, 3 de outubro de 2012
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
O Rappa vai além do banzo brasileiro e cativa o Lollapalooza
Banda abriu as atividades de um dos palcos do festival, em Chicago, e foi bem recebida pelo público
*Matéria originalmente publicada no site da revista Rolling Stone Brasil.
Abrir um dos palcos principais de um festival grande não é tarefa fácil para nenhum artista – especialmente se este mesmo palco é fora de sua terra natal e o headliner é ninguém menos que o Black Sabbath. Mas os brasileiros d’O Rappa não se intimidaram com a responsabilidade de iniciar as atividades do Bud Light Stage do Lollapalooza Chicago e fizeram um show intenso no início da tarde desta sexta-feira, 3.
Sob a mira de um forte sol e um calor de aproximadamente 33 graus, o grupo iniciou o show às 12h45 para o público que ainda chegava ao Grant Park. Não era difícil enxergar o verde e amarelo de camisetas e bandeiras empunhadas por brasileiros em frente ao palco. Mas já pela terceira canção do repertório, a plateia não seria exclusivamente de compatriotas saudosos do Brasil.
Se Perry Farrell (vocalista do Jane’s Addiction e idealizador do Lollapalooza) ficou impressionado com o grupo a ponto de convidá-lo para ser a única banda brasileira a tocar na edição norte-americana do festival, pode-se dizer que o efeito não foi diferente na plateia de Chicago. Mesmo que os elogios rasgados de Farrell beirem o exagero (o músico chegou a descrever o vocalista Falcão como “o novo Bob Marley”), o público dos Estados Unidos definitivamente enxergou algo de especial na mistura de reggae, rock e hip-hop da banda carioca. E O Rappa respondeu à altura com uma apresentação vigorosa.
Arriscando poucas frases em inglês – talvez por algum nervosismo –, Falcão limitou-se a chamar Chicago de “cidade linda” e agradecer a presença do público. Um intérprete foi chamado ao palco para anunciar tardiamente a banda e a canção “A Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)”. A partir daí, ficou claro que não era preciso nenhum tipo de diplomacia no idioma local para conquistar os norte-americanos presentes.
Apoiados por músicos extras, Xandão (guitarra), Lauro (baixo) e Lobato (teclados), apresentaram versões raivosas de “Hey Joe”, “Me Deixa” e “Lado B Lado A”. O único tropeço foi quando O Rappa se perdeu ao tocar uma versão bem improvisada de “Smoke On The Water”, do Deep Purple. Mas a brincadeira não apagou o brilho da apresentação e o grupo deixou o palco sob aplausos.
A receptividade do público local podia ser atestada também pelo Twitter: além dos brasileiros presentes elogiando o show, era possível acompanhar reações do público local, como “impossível não sacudir a cabeça ao ouvir O Rappa. Muita energia”. A revista Chicago Monthly não perdeu o bonde e cravou: “A atração mais impressionante do início da tarde: os brasileiros d’O Rappa, uma banda grande tanto em tamanho quanto em som”. Nada mal para uma “banda de guerreiros”, segundo o próprio Falcão.
Veja a banda tocando "Hey Joe" no festival:
Setlist
Reza Vela
Meu Mundo É O Barro
Homem Amarelo
O Salto
Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)
Me Deixa
Hey Joe
Lado B Lado A
*Matéria originalmente publicada no site da revista Rolling Stone Brasil.
Abrir um dos palcos principais de um festival grande não é tarefa fácil para nenhum artista – especialmente se este mesmo palco é fora de sua terra natal e o headliner é ninguém menos que o Black Sabbath. Mas os brasileiros d’O Rappa não se intimidaram com a responsabilidade de iniciar as atividades do Bud Light Stage do Lollapalooza Chicago e fizeram um show intenso no início da tarde desta sexta-feira, 3.
Sob a mira de um forte sol e um calor de aproximadamente 33 graus, o grupo iniciou o show às 12h45 para o público que ainda chegava ao Grant Park. Não era difícil enxergar o verde e amarelo de camisetas e bandeiras empunhadas por brasileiros em frente ao palco. Mas já pela terceira canção do repertório, a plateia não seria exclusivamente de compatriotas saudosos do Brasil.
Se Perry Farrell (vocalista do Jane’s Addiction e idealizador do Lollapalooza) ficou impressionado com o grupo a ponto de convidá-lo para ser a única banda brasileira a tocar na edição norte-americana do festival, pode-se dizer que o efeito não foi diferente na plateia de Chicago. Mesmo que os elogios rasgados de Farrell beirem o exagero (o músico chegou a descrever o vocalista Falcão como “o novo Bob Marley”), o público dos Estados Unidos definitivamente enxergou algo de especial na mistura de reggae, rock e hip-hop da banda carioca. E O Rappa respondeu à altura com uma apresentação vigorosa.
Arriscando poucas frases em inglês – talvez por algum nervosismo –, Falcão limitou-se a chamar Chicago de “cidade linda” e agradecer a presença do público. Um intérprete foi chamado ao palco para anunciar tardiamente a banda e a canção “A Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)”. A partir daí, ficou claro que não era preciso nenhum tipo de diplomacia no idioma local para conquistar os norte-americanos presentes.
Apoiados por músicos extras, Xandão (guitarra), Lauro (baixo) e Lobato (teclados), apresentaram versões raivosas de “Hey Joe”, “Me Deixa” e “Lado B Lado A”. O único tropeço foi quando O Rappa se perdeu ao tocar uma versão bem improvisada de “Smoke On The Water”, do Deep Purple. Mas a brincadeira não apagou o brilho da apresentação e o grupo deixou o palco sob aplausos.
A receptividade do público local podia ser atestada também pelo Twitter: além dos brasileiros presentes elogiando o show, era possível acompanhar reações do público local, como “impossível não sacudir a cabeça ao ouvir O Rappa. Muita energia”. A revista Chicago Monthly não perdeu o bonde e cravou: “A atração mais impressionante do início da tarde: os brasileiros d’O Rappa, uma banda grande tanto em tamanho quanto em som”. Nada mal para uma “banda de guerreiros”, segundo o próprio Falcão.
Veja a banda tocando "Hey Joe" no festival:
Setlist
Reza Vela
Meu Mundo É O Barro
Homem Amarelo
O Salto
Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)
Me Deixa
Hey Joe
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segunda-feira, 6 de agosto de 2012
At The Drive-In sacia fãs saudosos no Red Bull Soundstage
*Matéria originalmente publicada no Portal Vírgula.
Mais um fruto da recorrente ‘onda de turnês de reunião’ que virou moda entre bandas de décadas passadas, o At The Drive-In subiu ao Red Bull Stage neste domingo (5) para saciar a saudade de fãs antigos e, principalmente, a curiosidade daqueles que nunca viram o grupo ao vivo.
Depois de lançar o disco Relationship of Command - considerado um marco do post-hardcore - em 2000, o grupo encerrou as atividades um ano depois, cancelando a turnê de divulgação do trabalho e restringindo seu estouro no mainstream. Com o término, mais duas bandas foram originadas: o agressivo Sparta e o neo-progressivo The Mars Volta. Em janeiro deste ano, o grupo anunciou uma reunião para algumas datas, incluindo uma participação no festival Coachella, na qual seus integrantes pareceram um pouco desconfortáveis e desentrosados.
Para a sorte do público de Chicago, no Lollapalooza foi diferente. Cedric Bixler-Zavala (vocais), Omar Rodríguez-López (guitarra), Jim Ward (guitarra, teclados), Paul Hinojos (baixo) e Tony Hajjar (bateria) fizeram uma apresentação um pouco mais consistente e uma atitude mais relaxada no palco - com exceção de Omar, que se limitou ao canto esquerdo do palco, sem esboçar empolgação ou vontade de estar ali durante petardos como “Arcarsenal”, “Pattern Against User” e “Chanbara”.
A postura do guitarrista só confirma o que já havia dito em entrevistas sobre o retorno da banda: essa reunião do At The Drive-In é passageira e serve apenas para aproveitar o reconhecimento (leia-se grana) que a banda não obteve quando ainda estava na ativa. Por outro lado, Cedric deu um show à parte. Zavala não foi apenas um vocalista e sim um verdadeiro showman: em meio às canções, fazia piadas e provocava a plateia com suas estripulias no palco.
A capacidade de Cedric como entertainer foi colocada à prova quando problemas técnicos paralisaram o show por quase cinco minutos. Apostando no absurdo, o vocalista pediu para que o público jogasse coisas no palco e iniciou um monólogo estranho sobre chinelos. “O que estou procurando é parecido com Havaianas”, disse. Uma fã correu para lançar as suas no palco, mas Cedric respondeu, sarcástico: “por favor, não jogue seus chinelos prateados de hipster em mim. Não é desse tipo que estou falando. Eu quero daqueles chinelos que sua vovozinha faz para você”.
No final, Cedric encenou um diálogo com vozes estranhas para anunciar a faixa mais esperada da apresentação: “One Armed Scissor”. Ao fim da canção, a banda simplesmente deixou o palco sem dizer nada. Mas para os fãs que anos atrás sequer tinham esperança de ver o grupo ao vivo, não havia do que reclamar.
Setlist
Arcarsenal
Pattern Against User
Chanbara
Lopsided
Sleepwalk Capsules
Napoleon Solo
Quarantined
Enfilade
Pickpocket
Metronome Arthritis
Non-Zero Possibility
Catacombs
One Armed Scissor
Mais um fruto da recorrente ‘onda de turnês de reunião’ que virou moda entre bandas de décadas passadas, o At The Drive-In subiu ao Red Bull Stage neste domingo (5) para saciar a saudade de fãs antigos e, principalmente, a curiosidade daqueles que nunca viram o grupo ao vivo.
Depois de lançar o disco Relationship of Command - considerado um marco do post-hardcore - em 2000, o grupo encerrou as atividades um ano depois, cancelando a turnê de divulgação do trabalho e restringindo seu estouro no mainstream. Com o término, mais duas bandas foram originadas: o agressivo Sparta e o neo-progressivo The Mars Volta. Em janeiro deste ano, o grupo anunciou uma reunião para algumas datas, incluindo uma participação no festival Coachella, na qual seus integrantes pareceram um pouco desconfortáveis e desentrosados.
Para a sorte do público de Chicago, no Lollapalooza foi diferente. Cedric Bixler-Zavala (vocais), Omar Rodríguez-López (guitarra), Jim Ward (guitarra, teclados), Paul Hinojos (baixo) e Tony Hajjar (bateria) fizeram uma apresentação um pouco mais consistente e uma atitude mais relaxada no palco - com exceção de Omar, que se limitou ao canto esquerdo do palco, sem esboçar empolgação ou vontade de estar ali durante petardos como “Arcarsenal”, “Pattern Against User” e “Chanbara”.
A postura do guitarrista só confirma o que já havia dito em entrevistas sobre o retorno da banda: essa reunião do At The Drive-In é passageira e serve apenas para aproveitar o reconhecimento (leia-se grana) que a banda não obteve quando ainda estava na ativa. Por outro lado, Cedric deu um show à parte. Zavala não foi apenas um vocalista e sim um verdadeiro showman: em meio às canções, fazia piadas e provocava a plateia com suas estripulias no palco.
A capacidade de Cedric como entertainer foi colocada à prova quando problemas técnicos paralisaram o show por quase cinco minutos. Apostando no absurdo, o vocalista pediu para que o público jogasse coisas no palco e iniciou um monólogo estranho sobre chinelos. “O que estou procurando é parecido com Havaianas”, disse. Uma fã correu para lançar as suas no palco, mas Cedric respondeu, sarcástico: “por favor, não jogue seus chinelos prateados de hipster em mim. Não é desse tipo que estou falando. Eu quero daqueles chinelos que sua vovozinha faz para você”.
No final, Cedric encenou um diálogo com vozes estranhas para anunciar a faixa mais esperada da apresentação: “One Armed Scissor”. Ao fim da canção, a banda simplesmente deixou o palco sem dizer nada. Mas para os fãs que anos atrás sequer tinham esperança de ver o grupo ao vivo, não havia do que reclamar.
Setlist
Arcarsenal
Pattern Against User
Chanbara
Lopsided
Sleepwalk Capsules
Napoleon Solo
Quarantined
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Pickpocket
Metronome Arthritis
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sábado, 4 de agosto de 2012
O Rappa conquista público do Lollapalooza Chicago
*Resenha originalmente publicada no Portal Vírgula.
O Rappa fez bonito em sua apresentação no Lollapalooza Chicago, nesta sexta-feira (3). Com a tarefa difícil de abrir as atividades do palco Bud Light às 12h45, o grupo não se intimidou com o sol forte que castigava o Grant Park e justificou o convite feito por Perry Farrell (idealizador do festival) para tocar no evento com uma apresentação vigorosa.
Bem mais à vontade com os fãs brasileiros que estavam próximos à grade, Falcão arriscou poucas frases em inglês - “beautiful city” e “thank you”, por exemplo - e convocou um intérprete para anunciar “A Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)” como a música cujo clipe faturou alguns prêmios na MTV Brasil.
Mas o vocalista não precisou ir muito além no idioma local para conquistar o público norte-americano. Contando com alguns músicos de apoio afiados, Xandão (guitarra), Lauro (baixo) e Lobato (teclados) apresentaram versões enérgicas de “Hey Joe”, “Me Deixa” e “Lado B Lado A”.
Percebendo a boa receptividade da plateia geral com a mistura de reggae, rock e hip hop do grupo, O Rappa se soltou ao ponto de arriscar uma versão bem improvisada da clássica “Smoke On The Water” do Deep Purple. Brincadeiras desnecessárias à parte, a banda encerrou sua apresentação visivelmente emocionada com os aplausos conquistados fora de sua terra natal.
Setlist
Reza Vela
Meu Mundo É O Barro
Homem Amarelo
O Salto
Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)
Me Deixa
Hey Joe
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O Rappa fez bonito em sua apresentação no Lollapalooza Chicago, nesta sexta-feira (3). Com a tarefa difícil de abrir as atividades do palco Bud Light às 12h45, o grupo não se intimidou com o sol forte que castigava o Grant Park e justificou o convite feito por Perry Farrell (idealizador do festival) para tocar no evento com uma apresentação vigorosa.
Bem mais à vontade com os fãs brasileiros que estavam próximos à grade, Falcão arriscou poucas frases em inglês - “beautiful city” e “thank you”, por exemplo - e convocou um intérprete para anunciar “A Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)” como a música cujo clipe faturou alguns prêmios na MTV Brasil.
Mas o vocalista não precisou ir muito além no idioma local para conquistar o público norte-americano. Contando com alguns músicos de apoio afiados, Xandão (guitarra), Lauro (baixo) e Lobato (teclados) apresentaram versões enérgicas de “Hey Joe”, “Me Deixa” e “Lado B Lado A”.
Percebendo a boa receptividade da plateia geral com a mistura de reggae, rock e hip hop do grupo, O Rappa se soltou ao ponto de arriscar uma versão bem improvisada da clássica “Smoke On The Water” do Deep Purple. Brincadeiras desnecessárias à parte, a banda encerrou sua apresentação visivelmente emocionada com os aplausos conquistados fora de sua terra natal.
Setlist
Reza Vela
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Black Sabbath embala famílias em primeira noite do Lollapalooza
*Matéria originalmente publicada no Portal Vírgula.
Uma banda considerada “satânica” em seus primórdios servindo de trilha sonora para uma diversão familiar. Parece estranho, certo? Mas foi exatamente isso que o Black Sabbath fez na noite desta sexta-feira (3), ao encerrar o primeiro dia do Festival Lollapalooza em Chicago.
Ozzy Osbourne (vocais), Tony Iommi (guitarra) e Geezer Butler (baixo) subiram ao palco sua única apresentação na América este ano para entreter uma plateia diversificada: de fãs que os acompanhavam desde o começo da banda, no fim dos anos 60, passando por jovens moderninhos com óculos coloridos e pais com seus filhos menores. E o grupo inglês provou que ainda está à altura de todo esse fascínio que exerce no público desde que começou a tocar notas distorcidas com uma bela dose de temas obscuros.
Não é à toa que a banda iniciou o show com a faixa homônima, “Black Sabbath”. Nem mesmo o resquícios da luz do dia conseguiram atrapalhar o clima sombrio da canção, realçados por uma chama infernal que era transmitida no telão principal do palco. “The Wizard” veio na sequência, com Ozzy arriscando tocar gaita para puxar os riffs de Iommy que mais se aproximam das raízes do blues. “Behind the Wall of Sleep” antecedeu o momento de glória de Geezer Butller, com o seu clássico solo introdutório de “N.I.B”.
Ozzy obviamente já não é mais o mesmo: o vocalista não alcança mais os altos tons de antigamente - ele chegou a desafinar ligeiramente em “Into the Sun” e de maneira absurda em “Snowblind”, além de deixar perceber um vocal pré-gravado para reforçar algumas partes de “War Pigs” -, mas o forte de Osbourne nunca foi a técnica, e sim a empolgação no palco. E essa parte o madman não deixou de corresponder às expectativas dos fãs, que respondiam com a disposição de um exército aos comandos “vamos lá, batam palmas” e “eu não consigo ouvir vocês”.
Por mais que Ozzy ganhe a fama de roqueiro indestrutível por todo o seu histórico com drogas pesadas, Tony Iommi é o membro do Sabbath que traduz fielmente a descrição de “Iron Man”: depois de ter sua carreira como guitarrista ameaçada por um acidente que decepou parte de seus dedos médio e anelar da mão direita, Iommi desenvolveu dedais caseiros com ligas de couro e reaprendeu a tocar o instrumento, tornando-se um dos maiores expoentes da guitarra no mundo do rock pesado. No final do ano passado, mais um empecilho; Iommi foi diagnosticado com linfoma em estágio inicial e os planos para uma turnê mundial da nova reunião da formação clássica da banda foram adiados. Mas no palco, o guitarrista continua afiado e técnico como sempre, esboçando sorrisos tímidos que às vezes até transparecem algum tipo de constrangimento com a devoção dos fãs.
E a parte mais polêmica da recente volta do Sabbath também não fez feio: o baterista contratado Tommy Clufetos obviamente nunca substituirá a importância histórica de Bill Ward nas duas baquetas, mas o rapaz (nascido em 79, mesmo ano em que o grupo gravou o último disco de estúdio com sua formação original) justificou seu posto com um agressivo e impressionante solo de bateria após uma versão instrumental de “Symptom of the Universe”. Mas o público pareceu mais entretido com as bizarras participações de duas senhoras voluntárias do festival, que na metade final do show surgiram no canto esquerdo do palco para mesclar coreografias de air guitar com linguagem de sinais para surdo-mudo.
A banda se despediu do palco com “Children of the Grave”, apenas para retornar em seguida para o bis, com Ozzy atiçando a plateia ao perguntar “vocês querem mais uma?”. O grupo emendou a introdução de “Sabbath Bloody Sabbath” apenas para disfarçar a inevitável saideira, com “Paranoid”.
Setlist
Black Sabbath
The Wizard
Behind the Wall of Sleep
N.I.B.
Into the Void
Under the Sun
Snowblind
War Pigs
Electric Funeral
Sweet Leaf/ Symptom of the Universe (instrumental)
Solo de bateria
Iron Man
Fairies Wear Boots
Dirty Women
Children of the Grave
Bis
Paranoid
Uma banda considerada “satânica” em seus primórdios servindo de trilha sonora para uma diversão familiar. Parece estranho, certo? Mas foi exatamente isso que o Black Sabbath fez na noite desta sexta-feira (3), ao encerrar o primeiro dia do Festival Lollapalooza em Chicago.
Ozzy Osbourne (vocais), Tony Iommi (guitarra) e Geezer Butler (baixo) subiram ao palco sua única apresentação na América este ano para entreter uma plateia diversificada: de fãs que os acompanhavam desde o começo da banda, no fim dos anos 60, passando por jovens moderninhos com óculos coloridos e pais com seus filhos menores. E o grupo inglês provou que ainda está à altura de todo esse fascínio que exerce no público desde que começou a tocar notas distorcidas com uma bela dose de temas obscuros.
Não é à toa que a banda iniciou o show com a faixa homônima, “Black Sabbath”. Nem mesmo o resquícios da luz do dia conseguiram atrapalhar o clima sombrio da canção, realçados por uma chama infernal que era transmitida no telão principal do palco. “The Wizard” veio na sequência, com Ozzy arriscando tocar gaita para puxar os riffs de Iommy que mais se aproximam das raízes do blues. “Behind the Wall of Sleep” antecedeu o momento de glória de Geezer Butller, com o seu clássico solo introdutório de “N.I.B”.
Ozzy obviamente já não é mais o mesmo: o vocalista não alcança mais os altos tons de antigamente - ele chegou a desafinar ligeiramente em “Into the Sun” e de maneira absurda em “Snowblind”, além de deixar perceber um vocal pré-gravado para reforçar algumas partes de “War Pigs” -, mas o forte de Osbourne nunca foi a técnica, e sim a empolgação no palco. E essa parte o madman não deixou de corresponder às expectativas dos fãs, que respondiam com a disposição de um exército aos comandos “vamos lá, batam palmas” e “eu não consigo ouvir vocês”.
Por mais que Ozzy ganhe a fama de roqueiro indestrutível por todo o seu histórico com drogas pesadas, Tony Iommi é o membro do Sabbath que traduz fielmente a descrição de “Iron Man”: depois de ter sua carreira como guitarrista ameaçada por um acidente que decepou parte de seus dedos médio e anelar da mão direita, Iommi desenvolveu dedais caseiros com ligas de couro e reaprendeu a tocar o instrumento, tornando-se um dos maiores expoentes da guitarra no mundo do rock pesado. No final do ano passado, mais um empecilho; Iommi foi diagnosticado com linfoma em estágio inicial e os planos para uma turnê mundial da nova reunião da formação clássica da banda foram adiados. Mas no palco, o guitarrista continua afiado e técnico como sempre, esboçando sorrisos tímidos que às vezes até transparecem algum tipo de constrangimento com a devoção dos fãs.
E a parte mais polêmica da recente volta do Sabbath também não fez feio: o baterista contratado Tommy Clufetos obviamente nunca substituirá a importância histórica de Bill Ward nas duas baquetas, mas o rapaz (nascido em 79, mesmo ano em que o grupo gravou o último disco de estúdio com sua formação original) justificou seu posto com um agressivo e impressionante solo de bateria após uma versão instrumental de “Symptom of the Universe”. Mas o público pareceu mais entretido com as bizarras participações de duas senhoras voluntárias do festival, que na metade final do show surgiram no canto esquerdo do palco para mesclar coreografias de air guitar com linguagem de sinais para surdo-mudo.
A banda se despediu do palco com “Children of the Grave”, apenas para retornar em seguida para o bis, com Ozzy atiçando a plateia ao perguntar “vocês querem mais uma?”. O grupo emendou a introdução de “Sabbath Bloody Sabbath” apenas para disfarçar a inevitável saideira, com “Paranoid”.
Setlist
Black Sabbath
The Wizard
Behind the Wall of Sleep
N.I.B.
Into the Void
Under the Sun
Snowblind
War Pigs
Electric Funeral
Sweet Leaf/ Symptom of the Universe (instrumental)
Solo de bateria
Iron Man
Fairies Wear Boots
Dirty Women
Children of the Grave
Bis
Paranoid
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terça-feira, 19 de junho de 2012
Down, Sleep, Saint Vitus, Church of Misery, Witch Mountain e Atlas Moth no Scion Rock Fest, em Tampa
*Matéria originalmente publicada no site Tenho Mais Discos Que Amigos.
Imagine um festival de metal com 26 bandas espalhadas entre quatro casas de shows a poucos quarteirões de distância. Agora, adicione mais um importante detalhe: totalmente gratuito. Esse foi o Scion Rock Fest 2012, que aconteceu no dia 2 de junho, em Tampa (Flórida). Uma iniciativa da Scion Audio/Visual – um dos braços da esperta divisão de marketing da multinacional automobilística Toyota Motor Corporation – , a quarta edição do festival reuniu grandes nomes da cena metálica como Down, Exodus, Repulsion, Origin, Suffocation, bandas influentes como Sleep e Saint Vitus e mais novas que têm chamado atenção, como Atlas Moth, Witch Mountain e All Pigs Must Die.
Como não seria possível conferir todas as atrações espalhadas pelos quatro palcos, preferi dar prioridade às bandas que tocariam no Ritz Ybor: Atlas Moth, Witch Mountain, Church of Misery, Saint Vitus, Sleep e Down – todas geralmente associadas aos rótulos sludge, stoner e doom. Considerando a massa de pessoas acumulada na porta antes da abertura da casa, não dava pra pensar duas vezes e o melhor era pegar seu lugar na fila sem pestanejar. Apesar do frenesi acerca do início do festival, a entrada no Ritz Ybor foi tranquila e sem problemas com seguranças.
Atlas Moth
O Atlas Moth subiu no palco com a complicada tarefa de iniciar os trabalhos do dia. A banda sofreu um pouco com um som mal equalizado; os vocais de Stavros Giannopoulos e os teclados ocasionais do guitarrista Andrew Ragin ficaram em segundo plano no começo do show, provavelmente por conta do peso do ataque de três guitarras (sendo uma delas barítono). Mas, ao longo da performance, os problemas foram sanados e o Atlas Moth pôde mostrar um peso suingado em "Perpetual Generations" e os detalhes melódicos de "Your Calm Waters" com perfeição.
Witch Mountain
O Witch Mountain veio em seguida, capitaneado pela carismática e afinada vocalista Uta Plotkin. O guitarrista Rob Wrong fazia jus à sua tatuagem de Jimi Hendrix no braço esquerdo, destilando solos que alternavam modulações psicodélicas em seu pedal wah-wah com o peso característico do doom metal. O baixista Neal Munson também desempenhava suas funções com maestria, mantendo as bases nas linhas de baixo enquanto Wrong tinha seus momentos de virtuose.
O elo mais fraco da banda parecia ser o baterista Nate Carson, que optava por ritmos simples e se mostrava um pouco perdido em músicas com andamento mais acelerado. Ainda assim, sua técnica limitada não comprometeu petardos como "Beekeeper" e "Wing of the Lord", e o Witch Mountain saiu ovacionado do palco.
Church Of Misery
Envoltos por uma atmosfera setentista, os japoneses do Church of Misery apareceram para fazer uma zoeira dos diabos. O vocalista Hideki Fukasawa e o guitarrista Tom Sutton pareciam ter saído de uma banda tributo ao Led Zeppelin, vestidos com calças boca de sino e investindo numa presença de palco que mesclava aparência hippie com gritos guturais narrando temas sobre serial killers. A multidão respondia às doses cavalares de riffs pesados com um fluxo constante de pogos e crowd surfing.
Com um cenário desses, não demorou muito para que Hideki se jogasse na plateia. Como um verdadeiro showman, o vocalista incitou a reação cada vez mais violenta do público, caiu várias vezes do palco, mas continuou cantando como se nada tivesse acontecido. Enquanto isso, o baixista Tatsu Mikami se mantinha à esquerda do palco com seu baixo Rickenbacker na altura dos joelhos, solando com um wah wah na tradição sabbathiana de Geezer Butler no clássico "N.I.B.".
Saint Vitus
Parecia difícil para os veteranos do Saint Vitus superar a anarquia empreendida pelo Church of Misery. A banda do guitarrista Dave Chandler e do baixista Mark Adams não possui um grau alto de primor técnico; seu som básico, arrastado e repetitivo poderia ser facilmente comparado a um Ramones tocando Black Sabbath.
Mas isso conferiu um forte status cult ao grupo, sendo creditado como um dos precursores do Doom Metal. Apesar de ter iniciado seu show de maneira tímida – contrastando diretamente com os excessos mostrados pela banda anterior – o Saint Vitus garantiu a empolgação dos membros do Down nos cantos do palco, que cantavam as canções a plenos pulmões, contagiando a plateia. Passando por alguns problemas técnicos com sua guitarra, Chandler ficou visivelmente nervoso, e se isso seria motivo para estragar o show, mas o efeito foi justamente o inverso.
O guitarrista ficou cada vez mais possesso durante as execuções das músicas e o jogo virou para o Saint Vitus, com "Look Behind You" e "Windowpaine" ganhando versões aceleradas próprias para o mosh pit. O vocalista Scott Weinrich permanecia quase impassível a tudo isso e limitava-se a fazer cara de durão e cantar, escorado no pedestal do microfone no centro do palco. Mas Chandler dava um show à parte; no final de "Born Too Late", o guitarrista desceu do palco e foi até o público, colocando a guitarra à disposição de quem quisesse fazer barulho.
Sleep
Logo após o fim do show do Saint Vitus, uma grande massa de pessoas começou a tomar o Ritz Ybor para ver o show do Sleep. Considerado um dos grandes nomes do chamado stoner metal, o trio é formado atualmente por Al Cisneros (baixo e vocal), Matt Pike (guitarra) e Jason Roeder (bateria). Quando Pike apareceu no palco explorando as reverberações de sua guitarra distorcida, o público assistia a tudo de boca aberta. Assim que os riffs de "Dopesmoker" começaram a ser dedilhados, focos de fumaça brotavam de vários cantos da plateia.
Quando Cisneros e Roeder se juntaram ao guitarrista na execução do épico stoner de quase uma hora de duração, a multidão passou a responder com crowd surfings cada vez mais intensos, dando ainda mais trabalho aos seguranças da casa que o show do Church of Misery. Os três músicos mal olhavam para o que acontecia fora do palco, perdidos entre a combinação de notas graves sustentadas até o limite do suportável por Pike (que mais parecia um chefe índio no palco, iluminado pela luz vermelha intensa), amparada por um baixo pulsante e uma bateria lenta e quebrada.
Quem não estava preocupado em pogar com o restante da plateia, estava em transe com as reverberações que emanavam dos amplificadores Orange. No fim do show, Phil Anselmo (vocalista do Down) saiu de seu esconderijo ao lado da bateria e apareceu no palco com um bolo de aniversário, fazendo o público cantar parabéns para Matt Pike.
Down
Escalados para fechar a noite, o Down já sairia ovacionado do Ritz Ybor até mesmo se resolvesse focar seu set list em um repertório duvidoso como pagodes clássicos dos anos 90. Egressos de grandes bandas metaleiras como Pantera, Crowbar, Corrosion of Conformity e EyeHateGod, Phil Anselmo, Pepper Keenan, Kirk Windstein, Pat Bruders e Jimmy Bower surgiram no palco apresentados por Dave Chandler (Saint Vitus) emendando uma introdução barulhenta com "Lysergik Funeral Procession".
Alternando momentos de puro peso com conversas descompromissadas e recheadas de palavrões com o público, Anselmo parecia seguir à risca os dizeres 'Classic, not classy', estampado nas costas de sua camiseta surrada, que também trazia o logo de sua gravadora independente (Housecore Records). O set list não foi muito diferente do apresentado no show do SWU em Paulínia, no ano passado: grande parte do repertório era de faixas do célebre primeiro disco, NOLA, com exceção de algumas canções do segundo álbum, A Bustle in Your Hedgerow, e uma composição ainda inédita: "The Misfortune Teller", devidamente bem-recebida pelos fãs durante o bis.
Se o bolo-surpresa no fim do set do Sleep entregava o clima de camaradagem entre as bandas, ele foi escancarado durante o final da apresentação do Down. Enquanto finalizava "Bury Me in Smoke", Anselmo e companhia convidaram os membros e roadies das bandas que assistiam ao concerto dos bastidores para assumir os instrumentos, trocando de posições aos poucos e sem deixar a música parar. À medida que a canção era esticada para além de dez minutos, era possível ver membros do Down, Atlas Moth, Origin, Saint Vitus, Church of Misery e Sleep confraternizando no palco, envoltos em puro barulho. Um belo desfecho porrada para um festival caracterizado pela celebração do som pesado.
Mais vídeos do Scion Rock Fest aqui.
Imagine um festival de metal com 26 bandas espalhadas entre quatro casas de shows a poucos quarteirões de distância. Agora, adicione mais um importante detalhe: totalmente gratuito. Esse foi o Scion Rock Fest 2012, que aconteceu no dia 2 de junho, em Tampa (Flórida). Uma iniciativa da Scion Audio/Visual – um dos braços da esperta divisão de marketing da multinacional automobilística Toyota Motor Corporation – , a quarta edição do festival reuniu grandes nomes da cena metálica como Down, Exodus, Repulsion, Origin, Suffocation, bandas influentes como Sleep e Saint Vitus e mais novas que têm chamado atenção, como Atlas Moth, Witch Mountain e All Pigs Must Die.
Como não seria possível conferir todas as atrações espalhadas pelos quatro palcos, preferi dar prioridade às bandas que tocariam no Ritz Ybor: Atlas Moth, Witch Mountain, Church of Misery, Saint Vitus, Sleep e Down – todas geralmente associadas aos rótulos sludge, stoner e doom. Considerando a massa de pessoas acumulada na porta antes da abertura da casa, não dava pra pensar duas vezes e o melhor era pegar seu lugar na fila sem pestanejar. Apesar do frenesi acerca do início do festival, a entrada no Ritz Ybor foi tranquila e sem problemas com seguranças.
Atlas Moth
O Atlas Moth subiu no palco com a complicada tarefa de iniciar os trabalhos do dia. A banda sofreu um pouco com um som mal equalizado; os vocais de Stavros Giannopoulos e os teclados ocasionais do guitarrista Andrew Ragin ficaram em segundo plano no começo do show, provavelmente por conta do peso do ataque de três guitarras (sendo uma delas barítono). Mas, ao longo da performance, os problemas foram sanados e o Atlas Moth pôde mostrar um peso suingado em "Perpetual Generations" e os detalhes melódicos de "Your Calm Waters" com perfeição.
Witch Mountain
O Witch Mountain veio em seguida, capitaneado pela carismática e afinada vocalista Uta Plotkin. O guitarrista Rob Wrong fazia jus à sua tatuagem de Jimi Hendrix no braço esquerdo, destilando solos que alternavam modulações psicodélicas em seu pedal wah-wah com o peso característico do doom metal. O baixista Neal Munson também desempenhava suas funções com maestria, mantendo as bases nas linhas de baixo enquanto Wrong tinha seus momentos de virtuose.
O elo mais fraco da banda parecia ser o baterista Nate Carson, que optava por ritmos simples e se mostrava um pouco perdido em músicas com andamento mais acelerado. Ainda assim, sua técnica limitada não comprometeu petardos como "Beekeeper" e "Wing of the Lord", e o Witch Mountain saiu ovacionado do palco.
Church Of Misery
Envoltos por uma atmosfera setentista, os japoneses do Church of Misery apareceram para fazer uma zoeira dos diabos. O vocalista Hideki Fukasawa e o guitarrista Tom Sutton pareciam ter saído de uma banda tributo ao Led Zeppelin, vestidos com calças boca de sino e investindo numa presença de palco que mesclava aparência hippie com gritos guturais narrando temas sobre serial killers. A multidão respondia às doses cavalares de riffs pesados com um fluxo constante de pogos e crowd surfing.
Com um cenário desses, não demorou muito para que Hideki se jogasse na plateia. Como um verdadeiro showman, o vocalista incitou a reação cada vez mais violenta do público, caiu várias vezes do palco, mas continuou cantando como se nada tivesse acontecido. Enquanto isso, o baixista Tatsu Mikami se mantinha à esquerda do palco com seu baixo Rickenbacker na altura dos joelhos, solando com um wah wah na tradição sabbathiana de Geezer Butler no clássico "N.I.B.".
Saint Vitus
Parecia difícil para os veteranos do Saint Vitus superar a anarquia empreendida pelo Church of Misery. A banda do guitarrista Dave Chandler e do baixista Mark Adams não possui um grau alto de primor técnico; seu som básico, arrastado e repetitivo poderia ser facilmente comparado a um Ramones tocando Black Sabbath.
Mas isso conferiu um forte status cult ao grupo, sendo creditado como um dos precursores do Doom Metal. Apesar de ter iniciado seu show de maneira tímida – contrastando diretamente com os excessos mostrados pela banda anterior – o Saint Vitus garantiu a empolgação dos membros do Down nos cantos do palco, que cantavam as canções a plenos pulmões, contagiando a plateia. Passando por alguns problemas técnicos com sua guitarra, Chandler ficou visivelmente nervoso, e se isso seria motivo para estragar o show, mas o efeito foi justamente o inverso.
O guitarrista ficou cada vez mais possesso durante as execuções das músicas e o jogo virou para o Saint Vitus, com "Look Behind You" e "Windowpaine" ganhando versões aceleradas próprias para o mosh pit. O vocalista Scott Weinrich permanecia quase impassível a tudo isso e limitava-se a fazer cara de durão e cantar, escorado no pedestal do microfone no centro do palco. Mas Chandler dava um show à parte; no final de "Born Too Late", o guitarrista desceu do palco e foi até o público, colocando a guitarra à disposição de quem quisesse fazer barulho.
Sleep
Logo após o fim do show do Saint Vitus, uma grande massa de pessoas começou a tomar o Ritz Ybor para ver o show do Sleep. Considerado um dos grandes nomes do chamado stoner metal, o trio é formado atualmente por Al Cisneros (baixo e vocal), Matt Pike (guitarra) e Jason Roeder (bateria). Quando Pike apareceu no palco explorando as reverberações de sua guitarra distorcida, o público assistia a tudo de boca aberta. Assim que os riffs de "Dopesmoker" começaram a ser dedilhados, focos de fumaça brotavam de vários cantos da plateia.
Quando Cisneros e Roeder se juntaram ao guitarrista na execução do épico stoner de quase uma hora de duração, a multidão passou a responder com crowd surfings cada vez mais intensos, dando ainda mais trabalho aos seguranças da casa que o show do Church of Misery. Os três músicos mal olhavam para o que acontecia fora do palco, perdidos entre a combinação de notas graves sustentadas até o limite do suportável por Pike (que mais parecia um chefe índio no palco, iluminado pela luz vermelha intensa), amparada por um baixo pulsante e uma bateria lenta e quebrada.
Quem não estava preocupado em pogar com o restante da plateia, estava em transe com as reverberações que emanavam dos amplificadores Orange. No fim do show, Phil Anselmo (vocalista do Down) saiu de seu esconderijo ao lado da bateria e apareceu no palco com um bolo de aniversário, fazendo o público cantar parabéns para Matt Pike.
Down
Escalados para fechar a noite, o Down já sairia ovacionado do Ritz Ybor até mesmo se resolvesse focar seu set list em um repertório duvidoso como pagodes clássicos dos anos 90. Egressos de grandes bandas metaleiras como Pantera, Crowbar, Corrosion of Conformity e EyeHateGod, Phil Anselmo, Pepper Keenan, Kirk Windstein, Pat Bruders e Jimmy Bower surgiram no palco apresentados por Dave Chandler (Saint Vitus) emendando uma introdução barulhenta com "Lysergik Funeral Procession".
Alternando momentos de puro peso com conversas descompromissadas e recheadas de palavrões com o público, Anselmo parecia seguir à risca os dizeres 'Classic, not classy', estampado nas costas de sua camiseta surrada, que também trazia o logo de sua gravadora independente (Housecore Records). O set list não foi muito diferente do apresentado no show do SWU em Paulínia, no ano passado: grande parte do repertório era de faixas do célebre primeiro disco, NOLA, com exceção de algumas canções do segundo álbum, A Bustle in Your Hedgerow, e uma composição ainda inédita: "The Misfortune Teller", devidamente bem-recebida pelos fãs durante o bis.
Se o bolo-surpresa no fim do set do Sleep entregava o clima de camaradagem entre as bandas, ele foi escancarado durante o final da apresentação do Down. Enquanto finalizava "Bury Me in Smoke", Anselmo e companhia convidaram os membros e roadies das bandas que assistiam ao concerto dos bastidores para assumir os instrumentos, trocando de posições aos poucos e sem deixar a música parar. À medida que a canção era esticada para além de dez minutos, era possível ver membros do Down, Atlas Moth, Origin, Saint Vitus, Church of Misery e Sleep confraternizando no palco, envoltos em puro barulho. Um belo desfecho porrada para um festival caracterizado pela celebração do som pesado.
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terça-feira, 22 de maio de 2012
Wilco em Miami Beach: da leveza carismática à explosão noise
*Resenha originalmente publicada no Urbanaque.
Em mais uma data da turnê The Whole Love, o Wilco aportou em Miami na noite de terça-feira, 15, no Fillmore Miami Beach. Apesar de ser considerado um dos poucos nomes significativos do rock alternativo incluídos no mainstream – com reconhecimento atestado com prêmios no Grammy – os ingressos para o concerto não estavam esgotados. Mas se os bons refrãos de Jeff Tweedy e companhia não garantiram uma casa cheia, ao menos atraíram o interesse de várias faixas etárias: o público presente se estendia de jovens de 17 anos até quarentões.
O show teve abertura do Purling Hiss, um trio de Filadélfia com forte influência de guitar bands dos anos 90. Os músicos subiram ao palco às 20h03 e despejaram doses cavalares de rock e solos à la J Mascis (Dinosaur Jr), ao longo de um repertório curto de apenas sete músicas. Apesar de sabotados pelo som extremamente mal regulado – a bateria diminuta montada em frente à aparelhagem do Wilco não era microfonada e o vocal de Mike Polizze era totalmente encoberto pelo som de sua guitarra – a banda arrancou aplausos moderados da plateia.
Às 21h01 o Wilco surgiu timidamente no palco. Optando por um início mais introspectivo, o sexteto abriu o show com "One Sunday Morning", a faixa derradeira de seu álbum mais recente. Enquanto Jeff Tweedy dedilhava calmamente as notas no violão, acompanhado com parcimônia pelo guitarrista Nels Cline e Pat Sansone nos teclados, as luzes e projeções no palco reforçavam o tom sublime da canção. Totalmente desvinculada de imediatismo, "Poor Places" veio em seguida, exigindo dos expectadores uma cumplicidade silenciosa. O público se manteve quieto e assistia a tudo em clima de absoluta contemplação.
"Art of Almost" surgiu como o crescendo da apresentação, recheada de efeitos eletrônicos discretos que foram sumindo ao passo que a guitarra de Nels Cline foi tomando mais espaço até culminar em uma explosão noise. Não satisfeito em fazer uso dos efeitos dos dez pedais aos seus pés, Cline também abusou de um pequeno arsenal de aparelhos extras em uma mesa posicionada ao seu lado direito. Ao longo de toda a apresentação, Cline justificou seu posto entre os guitarristas mais notórios da atualidade, alternando uma grande quantidade de guitarras – chegou a usar três instrumentos diferentes em uma única canção -, momentos de delicadeza melódica e puro barulho ao maltratar suas cordas com um slide metálico. Estas intervenções desconcertantes não abusavam de virtuosismo, mas arrancam de seu instrumento sons que devem tanto às suas raízes no improviso do jazz quanto à influência do no wave do Sonic Youth.
Em contraponto às extravagâncias guitarrísticas de Cline, o baterista Glenn Kotche e o baixista John Stirratt compunham uma cozinha afiada o bastante para que o tecladista Mikael Jorgensen injetasse efeitos climáticos nas canções, muitas vezes acompanhado pelo multinstrumentista Pat Sansone. Jeff Tweedy também não deixou por menos e se mostrou um competente guitarrista, dobrando solos em "Side With the Seeds" e "Impossible Germany". Ao assumir a guitarra principal em "I'm The Man Who Loves You", Tweedy dedilhou solos e riffs sujos ao mesmo tempo em que atacava sua guitarra com alavancadas que lembraram os momentos elétricos de Neil Young.
Mas a maior arma de Tweedy não era sua técnica como instrumentista: era o carisma. Por mais que suas composições enveredem para letras tristes, ao vivo ele não segue o típico clichê do 'artista atormentado' – apesar de problemas anteriores com depressão e cruéis enxaquecas. Casado e pais de dois filhos, o líder do Wilco reflete agora em suas criações a crise de meia idade e seus demônios pessoais, mas no palco exibe uma simplicidade que cativa o público, quase como se a platéia calçasse os mesmos sapatos de seu ídolo.
Tweedy estava à vontade o bastante para incitar a participação do público no refrão de "Jesus Etc." e fazer piadas; após a tortuosa "Radio Cure", ele perguntou "vocês estavam cantando junto nessa música? É uma música realmente muito triste para cantar junto, vocês têm certeza?", ironizou. Antes de "I'm The Man Who Loves You", Kotche ficou em pé em sua bateria e Tweedy não perdeu a chance de sacanear o colega: "Glenn fez isso hoje porque uma jovem brasileira nos disse que isso é a coisa mais bonita que ela já viu. Não sei se dou risada ou choro disso", comentou, apontando para a fã.
Se "I Must Be High" surgiu para matar a saudade do primeiro disco do grupo, o último bis veio para fechar a noite com saudosismo: "Red-Eyed and Blue", "I Got You (At The End Of The Century)" e "Outtasite (Outta Mind)" vieram recheadas do country-rock do início da carreira da banda. O show chegou ao fim com a apoteótica "Hoodoo Voodoo", que contou com a participação do roadie Josh, que parecia ter saído do elenco do filme Quase Famosos. Desinibido, o roadie tirou a camisa e fez várias estripulias no palco, enquanto tocava cowbell. Um final surreal para um show que começou marcado pela introspecção.
Setlist:
One Sunday Morning
Poor Places
Art Of Almost
I Might
A Shot in the Arm
Side With The Seeds
Country Disappeared
War On War
Impossible Germany
Born Alone
Radio Cure
Capitol City
Handshake Drugs
Jesus, Etc.
Whole Love
I Must Be High
Dawned On Me
Heavy Metal Drummer
Primeiro bis:
Via Chicago
Hate It Here
Theologians
I’m the Man Who Loves You
Hummingbird
Segundo bis:
Red-Eyed and Blue
I Got You (At The End Of The Century)
Outtasite (Outta Mind)
Hoodoo Voodoo
Em mais uma data da turnê The Whole Love, o Wilco aportou em Miami na noite de terça-feira, 15, no Fillmore Miami Beach. Apesar de ser considerado um dos poucos nomes significativos do rock alternativo incluídos no mainstream – com reconhecimento atestado com prêmios no Grammy – os ingressos para o concerto não estavam esgotados. Mas se os bons refrãos de Jeff Tweedy e companhia não garantiram uma casa cheia, ao menos atraíram o interesse de várias faixas etárias: o público presente se estendia de jovens de 17 anos até quarentões.
O show teve abertura do Purling Hiss, um trio de Filadélfia com forte influência de guitar bands dos anos 90. Os músicos subiram ao palco às 20h03 e despejaram doses cavalares de rock e solos à la J Mascis (Dinosaur Jr), ao longo de um repertório curto de apenas sete músicas. Apesar de sabotados pelo som extremamente mal regulado – a bateria diminuta montada em frente à aparelhagem do Wilco não era microfonada e o vocal de Mike Polizze era totalmente encoberto pelo som de sua guitarra – a banda arrancou aplausos moderados da plateia.
Às 21h01 o Wilco surgiu timidamente no palco. Optando por um início mais introspectivo, o sexteto abriu o show com "One Sunday Morning", a faixa derradeira de seu álbum mais recente. Enquanto Jeff Tweedy dedilhava calmamente as notas no violão, acompanhado com parcimônia pelo guitarrista Nels Cline e Pat Sansone nos teclados, as luzes e projeções no palco reforçavam o tom sublime da canção. Totalmente desvinculada de imediatismo, "Poor Places" veio em seguida, exigindo dos expectadores uma cumplicidade silenciosa. O público se manteve quieto e assistia a tudo em clima de absoluta contemplação.
"Art of Almost" surgiu como o crescendo da apresentação, recheada de efeitos eletrônicos discretos que foram sumindo ao passo que a guitarra de Nels Cline foi tomando mais espaço até culminar em uma explosão noise. Não satisfeito em fazer uso dos efeitos dos dez pedais aos seus pés, Cline também abusou de um pequeno arsenal de aparelhos extras em uma mesa posicionada ao seu lado direito. Ao longo de toda a apresentação, Cline justificou seu posto entre os guitarristas mais notórios da atualidade, alternando uma grande quantidade de guitarras – chegou a usar três instrumentos diferentes em uma única canção -, momentos de delicadeza melódica e puro barulho ao maltratar suas cordas com um slide metálico. Estas intervenções desconcertantes não abusavam de virtuosismo, mas arrancam de seu instrumento sons que devem tanto às suas raízes no improviso do jazz quanto à influência do no wave do Sonic Youth.
Em contraponto às extravagâncias guitarrísticas de Cline, o baterista Glenn Kotche e o baixista John Stirratt compunham uma cozinha afiada o bastante para que o tecladista Mikael Jorgensen injetasse efeitos climáticos nas canções, muitas vezes acompanhado pelo multinstrumentista Pat Sansone. Jeff Tweedy também não deixou por menos e se mostrou um competente guitarrista, dobrando solos em "Side With the Seeds" e "Impossible Germany". Ao assumir a guitarra principal em "I'm The Man Who Loves You", Tweedy dedilhou solos e riffs sujos ao mesmo tempo em que atacava sua guitarra com alavancadas que lembraram os momentos elétricos de Neil Young.
Mas a maior arma de Tweedy não era sua técnica como instrumentista: era o carisma. Por mais que suas composições enveredem para letras tristes, ao vivo ele não segue o típico clichê do 'artista atormentado' – apesar de problemas anteriores com depressão e cruéis enxaquecas. Casado e pais de dois filhos, o líder do Wilco reflete agora em suas criações a crise de meia idade e seus demônios pessoais, mas no palco exibe uma simplicidade que cativa o público, quase como se a platéia calçasse os mesmos sapatos de seu ídolo.
Tweedy estava à vontade o bastante para incitar a participação do público no refrão de "Jesus Etc." e fazer piadas; após a tortuosa "Radio Cure", ele perguntou "vocês estavam cantando junto nessa música? É uma música realmente muito triste para cantar junto, vocês têm certeza?", ironizou. Antes de "I'm The Man Who Loves You", Kotche ficou em pé em sua bateria e Tweedy não perdeu a chance de sacanear o colega: "Glenn fez isso hoje porque uma jovem brasileira nos disse que isso é a coisa mais bonita que ela já viu. Não sei se dou risada ou choro disso", comentou, apontando para a fã.
Se "I Must Be High" surgiu para matar a saudade do primeiro disco do grupo, o último bis veio para fechar a noite com saudosismo: "Red-Eyed and Blue", "I Got You (At The End Of The Century)" e "Outtasite (Outta Mind)" vieram recheadas do country-rock do início da carreira da banda. O show chegou ao fim com a apoteótica "Hoodoo Voodoo", que contou com a participação do roadie Josh, que parecia ter saído do elenco do filme Quase Famosos. Desinibido, o roadie tirou a camisa e fez várias estripulias no palco, enquanto tocava cowbell. Um final surreal para um show que começou marcado pela introspecção.
Setlist:
One Sunday Morning
Poor Places
Art Of Almost
I Might
A Shot in the Arm
Side With The Seeds
Country Disappeared
War On War
Impossible Germany
Born Alone
Radio Cure
Capitol City
Handshake Drugs
Jesus, Etc.
Whole Love
I Must Be High
Dawned On Me
Heavy Metal Drummer
Primeiro bis:
Via Chicago
Hate It Here
Theologians
I’m the Man Who Loves You
Hummingbird
Segundo bis:
Red-Eyed and Blue
I Got You (At The End Of The Century)
Outtasite (Outta Mind)
Hoodoo Voodoo
domingo, 6 de maio de 2012
Beach Boys e o prestígio além do saudosismo
Genialidade tímida de Brian Wilson e carisma de Mike Love permearam show do grupo na Flórida na última sexta, 4
*Matéria originalmente publicada no site da revista Rolling Stone Brasil.
Em 1966, Brian Wilson declarou que seu objetivo era compor uma “sinfonia adolescente para Deus”. Não seria exagero dizer que, se ele não concretizou a façanha, ao menos chegou bem perto disso à frente dos Beach Boys. Na última sexta-feira, 4, a turnê de aniversário de 50 anos do grupo passou por Hollywood (Flórida, Estados Unidos) e mostrou que as harmonias vocais de Wilson, Mike Love, Al Jardine, Bruce Johnston e David Marks ainda conferem uma atmosfera angelical ao grupo no palco.
Às 20h05, batidas na bateria introduziram "Do It Again". À medida que os nomes dos membros principais eram convocados pelo microfone, a plateia do Hard Rock Live respondia com aplausos. Brian Wilson, o último a ser anunciado, foi o mais ovacionado. Visivelmente debilitado (seja por sequelas físicas ou psicológicas), o músico entrou em cena amparado por um ajudante e sentou-se em um piano à esquerda do palco. Apesar de toda a devoção dos fãs, Wilson pareceu estar mais à vontade no papel de coadjuvante durante a primeira parte da apresentação, assumindo os vocais principais somente em "Surfer Girl".
Em contraponto à timidez de Wilson, Mike Love era pura extroversão. Apresentando as canções e emendando comentários entre as músicas, o vocalista não perdia chances de satirizar sua própria velhice: Love iniciou "When I Grow Up To Be A Man" estendendo seu vocal à capela até ficar de joelhos no chão, reerguendo-se escorado pelos dois guitarristas à sua volta. Em outro momento, se pôs a comentar sobre os compactos em vinil que fizeram a fama da banda. "Tenho que explicar o que são discos, porque obviamente muita gente nem sabe do que se trata isso hoje em dia", brincou, arrancando risadas.
As piadas de Love se encaixaram perfeitamente com o público presente: muitos dos espectadores da noite eram senhores e senhoras de cabelos brancos (alguns de bengalas e cadeiras de rodas), muitos com camisas havaianas – uma referência ao uniforme do grupo nos tempos dourados. Em um dos momentos bem arquitetados para evocar a emoção destes fãs de longa data, o falecido baterista Dennis Wilson 'participou' pelo telão durante a execução de "Forever". O clássico "I Get Around" anunciou o fim da primeira parte do show e um intervalo de cerca de 20 minutos.
O segundo ato começou com uma versão simplória de "California Dreamin’" do Mamas & The Papas, mas logo revelou-se o momento mais intenso do concerto: canções como "Sail On, Sailor", "Heroes & Villains" e "I Just Wasn't Made for These Times" apresentaram alguns dos arranjos mais impecáveis de Brian Wilson. Em algumas músicas, era possível contabilizar dez músicos de apoio participando das performances no palco.
Carl Wilson, morto em 1998, também foi lembrado durante "God Only Knows", com a gravação de sua voz, enquanto apareciam imagens do guitarrista no telão. A nova "That's Why God Made the Radio" apareceu logo em seguida, dando uma prévia do que está por vir no primeiro álbum de material inédito do grupo desde "Summer In Paradise", de 1992. Ao puxar o vocal principal em "Rock N' Roll Music", de Chuck Berry, Brian discretamente deixou o palco e retornou após "Surfin' USA" – provavelmente para poupar energias para o fim do show. “Kokomo”, único hit dos Beach Boys durante os anos 80, iniciou o bis, que terminou de maneira festiva com a dobradinha "Good Vibrations" e "Fun, Fun, Fun".
Ainda que a nova "That's Why God Made the Radio" não esteja à altura de obras-primas como "Pet Sounds" e a atual excursão se enquadre como mais uma turnê caça-níquel entre outras tão constantes atualmente, a superação do histórico de problemas com drogas, brigas judiciais e diferenças entre os membros remanescentes do Beach Boys já é bastante válida – mesmo que seja apenas para celebrar o legado do grupo que já rivalizou com os Beatles nas paradas de sucesso.
Veja abaixo o set list da apresentação:
Primeiro ato
“Do It Again”
“Catch A Wave”
“Don't Back Down”
“Surfin' Safari”
“Surfer Girl”
“The Little Girl I Once Knew”
“Wendy”
“Forever”
“Then I Kissed Her”
“When I Grow Up (to Be a Man)”
“You're So Good to Me”
“Be True to Your School”
“Disney Girls”
“Please Let Me Wonder”
“Don't Worry Baby”
“Little Honda”
“Little Deuce Coupe”
“409”
“Shut Down”
“I Get Around”
Segundo ato
“California Dreamin’” (cover do The Mamas & the Papas)
“Sloop John B”
“Wouldn't It Be Nice”
“Sail on, Sailor”
“Heroes and Villains”
“In My Room”
“All This Is That”
“I Just Wasn't Made for These Times”
“God Only Knows”
“That's Why God Made the Radio”
“California Girls”
“Dance, Dance, Dance”
“All Summer Long”
“Help Me, Rhonda”
“Do You Wanna Dance?” (cover de Bobby Freeman)
“Rock and Roll Music” (cover de Chuck Berry)
“Barbara Ann” (cover do The Regents)
“Surfin' USA”
Bis:
“Kokomo”
“Good Vibrations”
“Fun, Fun, Fun”
Mais vídeos do show aqui.
*Matéria originalmente publicada no site da revista Rolling Stone Brasil.
Em 1966, Brian Wilson declarou que seu objetivo era compor uma “sinfonia adolescente para Deus”. Não seria exagero dizer que, se ele não concretizou a façanha, ao menos chegou bem perto disso à frente dos Beach Boys. Na última sexta-feira, 4, a turnê de aniversário de 50 anos do grupo passou por Hollywood (Flórida, Estados Unidos) e mostrou que as harmonias vocais de Wilson, Mike Love, Al Jardine, Bruce Johnston e David Marks ainda conferem uma atmosfera angelical ao grupo no palco.
Às 20h05, batidas na bateria introduziram "Do It Again". À medida que os nomes dos membros principais eram convocados pelo microfone, a plateia do Hard Rock Live respondia com aplausos. Brian Wilson, o último a ser anunciado, foi o mais ovacionado. Visivelmente debilitado (seja por sequelas físicas ou psicológicas), o músico entrou em cena amparado por um ajudante e sentou-se em um piano à esquerda do palco. Apesar de toda a devoção dos fãs, Wilson pareceu estar mais à vontade no papel de coadjuvante durante a primeira parte da apresentação, assumindo os vocais principais somente em "Surfer Girl".
Em contraponto à timidez de Wilson, Mike Love era pura extroversão. Apresentando as canções e emendando comentários entre as músicas, o vocalista não perdia chances de satirizar sua própria velhice: Love iniciou "When I Grow Up To Be A Man" estendendo seu vocal à capela até ficar de joelhos no chão, reerguendo-se escorado pelos dois guitarristas à sua volta. Em outro momento, se pôs a comentar sobre os compactos em vinil que fizeram a fama da banda. "Tenho que explicar o que são discos, porque obviamente muita gente nem sabe do que se trata isso hoje em dia", brincou, arrancando risadas.
As piadas de Love se encaixaram perfeitamente com o público presente: muitos dos espectadores da noite eram senhores e senhoras de cabelos brancos (alguns de bengalas e cadeiras de rodas), muitos com camisas havaianas – uma referência ao uniforme do grupo nos tempos dourados. Em um dos momentos bem arquitetados para evocar a emoção destes fãs de longa data, o falecido baterista Dennis Wilson 'participou' pelo telão durante a execução de "Forever". O clássico "I Get Around" anunciou o fim da primeira parte do show e um intervalo de cerca de 20 minutos.
O segundo ato começou com uma versão simplória de "California Dreamin’" do Mamas & The Papas, mas logo revelou-se o momento mais intenso do concerto: canções como "Sail On, Sailor", "Heroes & Villains" e "I Just Wasn't Made for These Times" apresentaram alguns dos arranjos mais impecáveis de Brian Wilson. Em algumas músicas, era possível contabilizar dez músicos de apoio participando das performances no palco.
Carl Wilson, morto em 1998, também foi lembrado durante "God Only Knows", com a gravação de sua voz, enquanto apareciam imagens do guitarrista no telão. A nova "That's Why God Made the Radio" apareceu logo em seguida, dando uma prévia do que está por vir no primeiro álbum de material inédito do grupo desde "Summer In Paradise", de 1992. Ao puxar o vocal principal em "Rock N' Roll Music", de Chuck Berry, Brian discretamente deixou o palco e retornou após "Surfin' USA" – provavelmente para poupar energias para o fim do show. “Kokomo”, único hit dos Beach Boys durante os anos 80, iniciou o bis, que terminou de maneira festiva com a dobradinha "Good Vibrations" e "Fun, Fun, Fun".
Ainda que a nova "That's Why God Made the Radio" não esteja à altura de obras-primas como "Pet Sounds" e a atual excursão se enquadre como mais uma turnê caça-níquel entre outras tão constantes atualmente, a superação do histórico de problemas com drogas, brigas judiciais e diferenças entre os membros remanescentes do Beach Boys já é bastante válida – mesmo que seja apenas para celebrar o legado do grupo que já rivalizou com os Beatles nas paradas de sucesso.
Veja abaixo o set list da apresentação:
Primeiro ato
“Do It Again”
“Catch A Wave”
“Don't Back Down”
“Surfin' Safari”
“Surfer Girl”
“The Little Girl I Once Knew”
“Wendy”
“Forever”
“Then I Kissed Her”
“When I Grow Up (to Be a Man)”
“You're So Good to Me”
“Be True to Your School”
“Disney Girls”
“Please Let Me Wonder”
“Don't Worry Baby”
“Little Honda”
“Little Deuce Coupe”
“409”
“Shut Down”
“I Get Around”
Segundo ato
“California Dreamin’” (cover do The Mamas & the Papas)
“Sloop John B”
“Wouldn't It Be Nice”
“Sail on, Sailor”
“Heroes and Villains”
“In My Room”
“All This Is That”
“I Just Wasn't Made for These Times”
“God Only Knows”
“That's Why God Made the Radio”
“California Girls”
“Dance, Dance, Dance”
“All Summer Long”
“Help Me, Rhonda”
“Do You Wanna Dance?” (cover de Bobby Freeman)
“Rock and Roll Music” (cover de Chuck Berry)
“Barbara Ann” (cover do The Regents)
“Surfin' USA”
Bis:
“Kokomo”
“Good Vibrations”
“Fun, Fun, Fun”
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sexta-feira, 27 de abril de 2012
Melvins e Unsane no The Social, em Orlando
Em turnê do disco novo, Melvins toca inéditas, faz cover de Wipers e dá aula de riffs pesados sem virtuosismo
*Resenha originalmente publicada no site da revista +Soma.
O Melvins é daqueles grupos que costumam ser mais lembrados pelos conjuntos que influenciaram do que pela própria obra. Juntamente com os contemporâneos U-Men, Green River e Skin Yard, a banda é considerada seminal para o que viria a ser o famoso ‘som de Seattle’, estourado por expoentes como Nirvana, Pearl Jam e Soundgarden na década de 90. Porém, a trajetória do Melvins provou ser maior do que a de seus pares: hoje estabelecido em Los Angeles, o grupo mantém uma carreira prolífica, com shows frequentes e mais de vinte lançamentos – sendo o último deles, o EP The Bulls & The Bees, de março deste ano. E foi com a turnê de divulgação deste trabalho que o grupo aportou no último dia 23, no The Social, casa de shows em Orlando (Flórida).
Para a excursão atual, o Melvins conta com o trio novaiorquino de noise rock Unsane – outro nome significativo do underground norte-americano – como banda de abertura. Apesar de uma trajetória errática, que inclui discos abortados, agressões em shows (o vocalista/guitarrista Chris Spencer foi atacado em um concerto em Viena, o que levou a banda a um hiato de três anos) e troca de integrantes, no palco o Unsane apresenta um punk rock similar ao do Shellac de Steve Albini, mas com pitadas agressivas de hardcore e metal.
Não bastasse o peso habitual, o Unsane ainda contou com um belo amplificador de pegada rítmica para esta apresentação: a dupla de bateristas do Melvins, Coady Willis (que ingressou na banda em 2010, via Big Business) e Dale Crover, revezou as funções com as baquetas entre as músicas, porque o baterista original, Vinnie Signorelli, estava hospitalizado. O rodízio empreendido por Willis e Crover chegou ao fim nas últimas canções do set, com os dois tocando simultaneamente e dando uma pequena prévia do que viria a seguir. O Unsane deixou o palco ovacionado por uma plateia empolgada, depois do cover de “Ha Ha Ha”, do Flipper.
Em seguida, a trilha de uma ópera satírica serviu como música de abertura para que Wilis e Crover fizessem algumas peripécias percussivas, enquanto o baixista Jared Warren regulava seus pedais de efeito. Eis que Buzz Osbourne aparece no palco, exibindo seu inconfundível penteado afro grisalho e vestido com uma túnica negra longa como um hábito de freira. O líder do Melvins plugou sua guitarra de corpo transparente e fez sinal para os outros membros, avisando que estava pronto para iniciar o show.
Com a primeira música do set, “Dog Island”, o Melvins já mostrou a que veio: riffs distorcidos, vocais graves e longos intervalos de intensas percussões que surgiam em proporção tão grande quanto a extravagância – visual e musical – de seus integrantes. Mesmo que a banda seja reconhecida por composições extensas, marcadas pelo peso ultra-lento, ao vivo essa tônica não apresenta momentos irregulares, mas alguns instantes de contemplação, como na quilométrica introdução de “Hung Bunny”, na qual Buzz deixa sua guitarra ecoar notas distorcidas até o limite do suportável.
Segundo a produção da banda, Osbourne estava doente e, para poupar a voz, evitaria dar entrevistas. Mas, com Warren dividindo os microfones – o baixista tem um timbre vocal bem similar ao do guitarrista – e as ocasionais participações vocais de Crover e Willis, a performance não foi prejudicada. A interação entre as vozes foi bem precisa em “The Water Glass”, que começa com um riff pesado e baterias matadoras, somente para depois cessar o turbilhão sonoro e dar lugar a um possante coro inesperado, com cadência de marcha militar, envolvendo toda a banda.
Assim como o Unsane, o Melvins reservou um tempo de sua apresentação para homenagear uma de suas influências. Ao tocar “Youth of America” dos Wipers, percebe-se que as habilidades dos músicos deve mais à herança de bandas como Flipper, Swans e Black Flag do que ao Black Sabbath, a quem o Melvins é comumente associado por críticos desavisados. Neste número, a sujeira de riffs repetitivos com afinação baixa e sonoridade metálica dá lugar à raiz punk de Buzz, com solos noise simples dedilhados em um ritmo frenético, mas sem os exageros virtuosos dos guitarristas de metal.
Depois de tocar “A Growing Disgust”, faixa inédita de seu próximo disco (Freak Puke, com previsão de lançamento em junho), o Melvins concentrou o final do setlist em The Bulls & the Bees, embarcando no momento mais forte da banda ao vivo. As duas baterias, montadas lado a lado, conferem um espetáculo à parte: Coady Willis (canhoto) e Dale Crover (destro) parecem tocar ao lado de um espelho, tamanha sincronização. Apesar de já ostentar 44 anos e uma forma mais arredondada do que em seus tempos áureos, Crover ainda faz jus ao posto de pioneiro no estilo de caras como Dave Grohl e Matt Cameron.
O ritmo cai durante “A Really Long Wait” (que por sinal tem um título muito apropriado), apenas para que a cadência rasgada de “National Hamster” presenteie o público com mais uma dose de riffs. Ao emendar as canções de seu setlist, Buzz e seus asseclas não só evitam o cansaço do público, como também a necessidade de interagir com a plateia. Somente no final da última música, “The Bit”, Warren foi ao microfone deixar um “obrigado e boa noite”. Com todos os membros aparentemente satisfeitos, a banda saiu do palco sem bis. Não precisava: a plateia já estava satisfeira com o reinado de terror de King Buzzo e a surdez parcial do dia seguinte.
Setlist:
Dog Island
Hung Bunny / Roman Dog Bird
The Water Glass
Evil New War God
Manky
A History of Bad Men
Youth of America (cover do Wipers)
A Growing Disgust
The War on Wisdom
We Are Doomed
Friends Before Larry
A Really Long Wait
National Hamster
The Bit
*Resenha originalmente publicada no site da revista +Soma.
O Melvins é daqueles grupos que costumam ser mais lembrados pelos conjuntos que influenciaram do que pela própria obra. Juntamente com os contemporâneos U-Men, Green River e Skin Yard, a banda é considerada seminal para o que viria a ser o famoso ‘som de Seattle’, estourado por expoentes como Nirvana, Pearl Jam e Soundgarden na década de 90. Porém, a trajetória do Melvins provou ser maior do que a de seus pares: hoje estabelecido em Los Angeles, o grupo mantém uma carreira prolífica, com shows frequentes e mais de vinte lançamentos – sendo o último deles, o EP The Bulls & The Bees, de março deste ano. E foi com a turnê de divulgação deste trabalho que o grupo aportou no último dia 23, no The Social, casa de shows em Orlando (Flórida).
Para a excursão atual, o Melvins conta com o trio novaiorquino de noise rock Unsane – outro nome significativo do underground norte-americano – como banda de abertura. Apesar de uma trajetória errática, que inclui discos abortados, agressões em shows (o vocalista/guitarrista Chris Spencer foi atacado em um concerto em Viena, o que levou a banda a um hiato de três anos) e troca de integrantes, no palco o Unsane apresenta um punk rock similar ao do Shellac de Steve Albini, mas com pitadas agressivas de hardcore e metal.
Não bastasse o peso habitual, o Unsane ainda contou com um belo amplificador de pegada rítmica para esta apresentação: a dupla de bateristas do Melvins, Coady Willis (que ingressou na banda em 2010, via Big Business) e Dale Crover, revezou as funções com as baquetas entre as músicas, porque o baterista original, Vinnie Signorelli, estava hospitalizado. O rodízio empreendido por Willis e Crover chegou ao fim nas últimas canções do set, com os dois tocando simultaneamente e dando uma pequena prévia do que viria a seguir. O Unsane deixou o palco ovacionado por uma plateia empolgada, depois do cover de “Ha Ha Ha”, do Flipper.
Em seguida, a trilha de uma ópera satírica serviu como música de abertura para que Wilis e Crover fizessem algumas peripécias percussivas, enquanto o baixista Jared Warren regulava seus pedais de efeito. Eis que Buzz Osbourne aparece no palco, exibindo seu inconfundível penteado afro grisalho e vestido com uma túnica negra longa como um hábito de freira. O líder do Melvins plugou sua guitarra de corpo transparente e fez sinal para os outros membros, avisando que estava pronto para iniciar o show.
Com a primeira música do set, “Dog Island”, o Melvins já mostrou a que veio: riffs distorcidos, vocais graves e longos intervalos de intensas percussões que surgiam em proporção tão grande quanto a extravagância – visual e musical – de seus integrantes. Mesmo que a banda seja reconhecida por composições extensas, marcadas pelo peso ultra-lento, ao vivo essa tônica não apresenta momentos irregulares, mas alguns instantes de contemplação, como na quilométrica introdução de “Hung Bunny”, na qual Buzz deixa sua guitarra ecoar notas distorcidas até o limite do suportável.
Segundo a produção da banda, Osbourne estava doente e, para poupar a voz, evitaria dar entrevistas. Mas, com Warren dividindo os microfones – o baixista tem um timbre vocal bem similar ao do guitarrista – e as ocasionais participações vocais de Crover e Willis, a performance não foi prejudicada. A interação entre as vozes foi bem precisa em “The Water Glass”, que começa com um riff pesado e baterias matadoras, somente para depois cessar o turbilhão sonoro e dar lugar a um possante coro inesperado, com cadência de marcha militar, envolvendo toda a banda.
Assim como o Unsane, o Melvins reservou um tempo de sua apresentação para homenagear uma de suas influências. Ao tocar “Youth of America” dos Wipers, percebe-se que as habilidades dos músicos deve mais à herança de bandas como Flipper, Swans e Black Flag do que ao Black Sabbath, a quem o Melvins é comumente associado por críticos desavisados. Neste número, a sujeira de riffs repetitivos com afinação baixa e sonoridade metálica dá lugar à raiz punk de Buzz, com solos noise simples dedilhados em um ritmo frenético, mas sem os exageros virtuosos dos guitarristas de metal.
Depois de tocar “A Growing Disgust”, faixa inédita de seu próximo disco (Freak Puke, com previsão de lançamento em junho), o Melvins concentrou o final do setlist em The Bulls & the Bees, embarcando no momento mais forte da banda ao vivo. As duas baterias, montadas lado a lado, conferem um espetáculo à parte: Coady Willis (canhoto) e Dale Crover (destro) parecem tocar ao lado de um espelho, tamanha sincronização. Apesar de já ostentar 44 anos e uma forma mais arredondada do que em seus tempos áureos, Crover ainda faz jus ao posto de pioneiro no estilo de caras como Dave Grohl e Matt Cameron.
O ritmo cai durante “A Really Long Wait” (que por sinal tem um título muito apropriado), apenas para que a cadência rasgada de “National Hamster” presenteie o público com mais uma dose de riffs. Ao emendar as canções de seu setlist, Buzz e seus asseclas não só evitam o cansaço do público, como também a necessidade de interagir com a plateia. Somente no final da última música, “The Bit”, Warren foi ao microfone deixar um “obrigado e boa noite”. Com todos os membros aparentemente satisfeitos, a banda saiu do palco sem bis. Não precisava: a plateia já estava satisfeira com o reinado de terror de King Buzzo e a surdez parcial do dia seguinte.
Setlist:
Dog Island
Hung Bunny / Roman Dog Bird
The Water Glass
Evil New War God
Manky
A History of Bad Men
Youth of America (cover do Wipers)
A Growing Disgust
The War on Wisdom
We Are Doomed
Friends Before Larry
A Really Long Wait
National Hamster
The Bit
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Radiohead e a estranha alegria de Thom Yorke
Dançando como no clipe de "Lotus Flower", líder da banda aproveitou para cantar duas inéditas no primeiro show da turnê do disco The King of Limbs
*Matéria originalmente publicada no site da revista Rolling Stone Brasil.
Muita gente torceu o nariz para o Radiohead depois do lançamento do álbum The King of Limbs, no ano passado. Tão difícil quanto o experimental Kid A, o disco descarta refrãos fáceis e melodias grudentas, optando pela mistura de percussão com música eletrônica e trazendo à tona, à primeira vista, os momentos mais introspectivos do grupo. Mas essa qualidade "hermética" caiu por terra no primeiro show da nova turnê da banda, em Miami, nesta segunda-feira, 27.
Se o clipe de "Lotus Flower" virou sucesso de internet por conta da dança performática de Thom Yorke - que antes era restrita apenas aos momentos mais dançantes de músicas como "Idioteque" e "The National Anthem" -, o que se vê no Radiohead agora é que as novas composições servem como meio para extravasar ainda mais essa forma de expressão do líder do grupo. Ao subir no palco da American Airlines Arena trajando camisa branca, colete preto, calças vermelhas e ostentando um curto rabo de cavalo, Yorke pareceu passar por cima do espectro dos anos 90 e da imagem do rockstar desolado que construiu para si na época.
E essa tendência também é conivente com o repertório do show. The King of Limbs foi tocado praticamente na íntegra (apenas "Little By Little" ficou de fora). Clássicos dos dois primeiros discos foram ignorados, e foram incluídas somente três músicas da célebre era OK Computer – "Airbag", "Karma Police" e o improvável lado-b "Meeting in the Aisle". Além disso, o grupo também aproveitou para debutar ao vivo duas composições inéditas, "Identikit" e "Cut a Hole", que solidificam a tônica da vez do Radiohead: canções construídas por repetições eletrônicas e escassez de guitarras, mas com o potencial percussivo reforçado pela participação de Clive Deamer (jazzista que já colaborou com nomes como Portishead e Jeff Beck) como baterista adicional na nova turnê.
Com o repertório renovado por essa nova química e um palco com pequenos telões e luzes com efeitos variados, músicas como "The National Anthem", "Morning Mr Magpie", "Feral" e, logicamente, "Lotus Flower" desencadearam a catarse no público e renderam boas oportunidades para que um agitado Yorke trocasse as guitarras por teclados e fosse à beira do palco arriscar passos de dança com movimentos semelhantes a surtos epiléticos (como os de Ian Curtis, do Joy Division). Claro, o Thom Yorke depressivo e esquisito não ficou definitivamente para trás (ele ainda apareceu em faixas arrastadas conduzidas ao piano, como "You And Whose Army?" e "The Daily Mail"), mas pode-se dizer que ao menos nesta noite Yorke estava mais carismático do que triste.
Nem mesmo um erro técnico do guitarrista Jonny Greenwood em "Give Up The Ghost" estragou a espontaneidade de Yorke: ao perceber que o músico passava por problemas com sua aparelhagem, o vocalista parou de tocar o violão e recomeçou a canção. O frontman parece ter deixado de lado a postura insegura e cheia de autocomiseração de antes, tanto que, durante o segundo bis, fez questão de puxar o coro da plateia ao final de "Karma Police", como aconteceu nas apresentações que o grupo fez no Brasil, em março de 2009. E o esquisitão foi prontamente correspondido pelo público: "and for a minute here I lost myself, I lost myself...".
Veja abaixo o set list do show:
Bloom
The Daily Mail
Morning Mr Magpie
Staircase
The National Anthem
Meeting in the Aisle
Kid A
The Gloaming
Codex
You and Whose Army?
Nude
Identikit
Lotus Flower
There There
Feral
Idioteque
Separator
Primeiro Bis:
Airbag
Bodysnatchers
Cut a Hole
Weird Fishes/Arpeggi
Segundo Bis:
Give Up The Ghost
Reckoner
Karma Police
Mais vídeos do show aqui.
*Matéria originalmente publicada no site da revista Rolling Stone Brasil.
Muita gente torceu o nariz para o Radiohead depois do lançamento do álbum The King of Limbs, no ano passado. Tão difícil quanto o experimental Kid A, o disco descarta refrãos fáceis e melodias grudentas, optando pela mistura de percussão com música eletrônica e trazendo à tona, à primeira vista, os momentos mais introspectivos do grupo. Mas essa qualidade "hermética" caiu por terra no primeiro show da nova turnê da banda, em Miami, nesta segunda-feira, 27.
Se o clipe de "Lotus Flower" virou sucesso de internet por conta da dança performática de Thom Yorke - que antes era restrita apenas aos momentos mais dançantes de músicas como "Idioteque" e "The National Anthem" -, o que se vê no Radiohead agora é que as novas composições servem como meio para extravasar ainda mais essa forma de expressão do líder do grupo. Ao subir no palco da American Airlines Arena trajando camisa branca, colete preto, calças vermelhas e ostentando um curto rabo de cavalo, Yorke pareceu passar por cima do espectro dos anos 90 e da imagem do rockstar desolado que construiu para si na época.
E essa tendência também é conivente com o repertório do show. The King of Limbs foi tocado praticamente na íntegra (apenas "Little By Little" ficou de fora). Clássicos dos dois primeiros discos foram ignorados, e foram incluídas somente três músicas da célebre era OK Computer – "Airbag", "Karma Police" e o improvável lado-b "Meeting in the Aisle". Além disso, o grupo também aproveitou para debutar ao vivo duas composições inéditas, "Identikit" e "Cut a Hole", que solidificam a tônica da vez do Radiohead: canções construídas por repetições eletrônicas e escassez de guitarras, mas com o potencial percussivo reforçado pela participação de Clive Deamer (jazzista que já colaborou com nomes como Portishead e Jeff Beck) como baterista adicional na nova turnê.
Com o repertório renovado por essa nova química e um palco com pequenos telões e luzes com efeitos variados, músicas como "The National Anthem", "Morning Mr Magpie", "Feral" e, logicamente, "Lotus Flower" desencadearam a catarse no público e renderam boas oportunidades para que um agitado Yorke trocasse as guitarras por teclados e fosse à beira do palco arriscar passos de dança com movimentos semelhantes a surtos epiléticos (como os de Ian Curtis, do Joy Division). Claro, o Thom Yorke depressivo e esquisito não ficou definitivamente para trás (ele ainda apareceu em faixas arrastadas conduzidas ao piano, como "You And Whose Army?" e "The Daily Mail"), mas pode-se dizer que ao menos nesta noite Yorke estava mais carismático do que triste.
Nem mesmo um erro técnico do guitarrista Jonny Greenwood em "Give Up The Ghost" estragou a espontaneidade de Yorke: ao perceber que o músico passava por problemas com sua aparelhagem, o vocalista parou de tocar o violão e recomeçou a canção. O frontman parece ter deixado de lado a postura insegura e cheia de autocomiseração de antes, tanto que, durante o segundo bis, fez questão de puxar o coro da plateia ao final de "Karma Police", como aconteceu nas apresentações que o grupo fez no Brasil, em março de 2009. E o esquisitão foi prontamente correspondido pelo público: "and for a minute here I lost myself, I lost myself...".
Veja abaixo o set list do show:
Bloom
The Daily Mail
Morning Mr Magpie
Staircase
The National Anthem
Meeting in the Aisle
Kid A
The Gloaming
Codex
You and Whose Army?
Nude
Identikit
Lotus Flower
There There
Feral
Idioteque
Separator
Primeiro Bis:
Airbag
Bodysnatchers
Cut a Hole
Weird Fishes/Arpeggi
Segundo Bis:
Give Up The Ghost
Reckoner
Karma Police
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terça-feira, 20 de setembro de 2011
FourFest com The Pains of Being Pure at Heart, Ariel Pink's Haunted Graffiti e Some Community
*Matéria originalmente publicada no site Tenho Mais Discos Que Amigos.
Com a proposta de unir bandas de sonoridades distintas que despertam atenção no rock alternativo contemporâneo, a segunda edição do Fourfest teve o azar de acontecer em uma ingrata noite de quinta-feira. Por isso, já subentendem-se os entraves que poderiam estragar a noite: grande parte do público tinha idade média entre 20 e 35 anos e amargaria uma bela ressaca no trabalho durante o dia seguinte; a casa escolhida para sediar o evento, o Clash Club, não é exatamente de fácil acesso a transporte – em comparação às casas da badalada região do Baixo Augusta – e também volta e meia deixa transparecer problemas com sua aparelhagem, com caixas de som saturadas em diferentes momentos.
Os fatores descritos acima, combinados com os corriqueiros atrasos já esperados em qualquer evento de música, contribuíram para tirar o brilho do festival. Mas até aí, será que a música compensou? Em certos momentos, sim.
Com quase uma hora de atraso, os paulistas do Some Community subiram ao palco para mostrar seu repertório calcado no lado pop do indie rock com alguns toques de post-punk. Apresentando músicas melhores do que as que exibe em seu perfil no MySpace, a banda claramente evolui seu som ao vivo. Mas nem mesmo o carisma da vocalista Juliana Vacaro e o fato do baixista/guitarrista Fernando Fernandes conversar com o público algumas vezes quebrou o gelo daquele estágio inicial do festival. Talvez porque a muita gente estivesse mais preocupada em pegar suas cervejas para o que viria a seguir.
Pois bem: quando o compositor californiano Ariel Pink subiu ao palco com sua banda Haunted Graffiti, o jogo já estava ganho. Apesar da pequena enrolação para começar o show – de novo os problemas com o som da casa -, ficou claro que se a maioria do público presente no festival não estava ali para prestigiá-lo, provavelmente foi conquistado ao longo de seu set. Com seu freak folk misturando vocais agudos, riffs de guitarra, solos, teclados e nuances retrô dos anos 60 e toques góticos oitentistas, Ariel Pink fez a melhor apresentação da noite. Considerado um 'show de risco' por conta de seu comportamento excêntrico em gigs anteriores (ele chegou a abandonar uma apresentação no meio no Coachella, sem explicação), Ariel manteve-se o tempo todo com uma postura profissional durante sua performance. Mas ao perceber a comoção que causou na plateia ao tocar músicas do disco Before Today – especialmente "Bright Lit Blue Skies" e "Round and Round" – sua postura quase impassível se tornou tímida e Pink não conseguiu esconder alguns sorrisos.
Apesar de serem os headliners, a noite não estava muito favorável ao The Pains of Being Pure at Heart. Primeiramente, por conta do horário: a atração principal foi subir ao palco somente às 1h30, então muita gente foi embora antes do fim do show. Outro fator foi o som da banda, que ao vivo parece perder a potência. Analisando friamente, o tal 'noise pop' do Pains na verdade é um pastiche de várias guitar bands dos anos 90 com alguns toques de Smiths e The Cure. Por mais que a banda tenha iniciado com a pegada mezzo My Bloody Valentine mezzo Smashing Pumpkins de "Belong", no palco do Clash a banda soou inocente e limpinha demais nas músicas seguintes. Foi quase como se todos dos membros tivessem esquecido seus pedais Bigmuffs em casa. Resultado: os que não eram fãs ardorosos da banda (que estavam fielmente cantando música por música em frente ao palco), não resistiram esperar até o fim do show. Quando tocaram canções como "Heavens Gonna Happen Now", ela não passou de uma banda sem presença de palco tocando múltiplas versões fracas de "Star Sign" do Teenage Fanclub. Não foi surpresa a banda ter retornado para o bis para uma plateia bem reduzida.
Em suma, o Fourfest provou ser um festival modesto, mas que procura oferecer shows interessantes sem muito alarde. A organização do evento precisa apenas conciliar melhor o cronograma de suas atrações para evitar atrasos, além de primar pela qualidade do som.
Com a proposta de unir bandas de sonoridades distintas que despertam atenção no rock alternativo contemporâneo, a segunda edição do Fourfest teve o azar de acontecer em uma ingrata noite de quinta-feira. Por isso, já subentendem-se os entraves que poderiam estragar a noite: grande parte do público tinha idade média entre 20 e 35 anos e amargaria uma bela ressaca no trabalho durante o dia seguinte; a casa escolhida para sediar o evento, o Clash Club, não é exatamente de fácil acesso a transporte – em comparação às casas da badalada região do Baixo Augusta – e também volta e meia deixa transparecer problemas com sua aparelhagem, com caixas de som saturadas em diferentes momentos.
Os fatores descritos acima, combinados com os corriqueiros atrasos já esperados em qualquer evento de música, contribuíram para tirar o brilho do festival. Mas até aí, será que a música compensou? Em certos momentos, sim.
Com quase uma hora de atraso, os paulistas do Some Community subiram ao palco para mostrar seu repertório calcado no lado pop do indie rock com alguns toques de post-punk. Apresentando músicas melhores do que as que exibe em seu perfil no MySpace, a banda claramente evolui seu som ao vivo. Mas nem mesmo o carisma da vocalista Juliana Vacaro e o fato do baixista/guitarrista Fernando Fernandes conversar com o público algumas vezes quebrou o gelo daquele estágio inicial do festival. Talvez porque a muita gente estivesse mais preocupada em pegar suas cervejas para o que viria a seguir.
Pois bem: quando o compositor californiano Ariel Pink subiu ao palco com sua banda Haunted Graffiti, o jogo já estava ganho. Apesar da pequena enrolação para começar o show – de novo os problemas com o som da casa -, ficou claro que se a maioria do público presente no festival não estava ali para prestigiá-lo, provavelmente foi conquistado ao longo de seu set. Com seu freak folk misturando vocais agudos, riffs de guitarra, solos, teclados e nuances retrô dos anos 60 e toques góticos oitentistas, Ariel Pink fez a melhor apresentação da noite. Considerado um 'show de risco' por conta de seu comportamento excêntrico em gigs anteriores (ele chegou a abandonar uma apresentação no meio no Coachella, sem explicação), Ariel manteve-se o tempo todo com uma postura profissional durante sua performance. Mas ao perceber a comoção que causou na plateia ao tocar músicas do disco Before Today – especialmente "Bright Lit Blue Skies" e "Round and Round" – sua postura quase impassível se tornou tímida e Pink não conseguiu esconder alguns sorrisos.
Apesar de serem os headliners, a noite não estava muito favorável ao The Pains of Being Pure at Heart. Primeiramente, por conta do horário: a atração principal foi subir ao palco somente às 1h30, então muita gente foi embora antes do fim do show. Outro fator foi o som da banda, que ao vivo parece perder a potência. Analisando friamente, o tal 'noise pop' do Pains na verdade é um pastiche de várias guitar bands dos anos 90 com alguns toques de Smiths e The Cure. Por mais que a banda tenha iniciado com a pegada mezzo My Bloody Valentine mezzo Smashing Pumpkins de "Belong", no palco do Clash a banda soou inocente e limpinha demais nas músicas seguintes. Foi quase como se todos dos membros tivessem esquecido seus pedais Bigmuffs em casa. Resultado: os que não eram fãs ardorosos da banda (que estavam fielmente cantando música por música em frente ao palco), não resistiram esperar até o fim do show. Quando tocaram canções como "Heavens Gonna Happen Now", ela não passou de uma banda sem presença de palco tocando múltiplas versões fracas de "Star Sign" do Teenage Fanclub. Não foi surpresa a banda ter retornado para o bis para uma plateia bem reduzida.
Em suma, o Fourfest provou ser um festival modesto, mas que procura oferecer shows interessantes sem muito alarde. A organização do evento precisa apenas conciliar melhor o cronograma de suas atrações para evitar atrasos, além de primar pela qualidade do som.
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segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Jon Spencer Blues Explosion no Bourbon Street
*Resenha originalmente publicada no Urbanaque.
O show de Jon Spencer Blues Explosion na última quinta-feira (28/07) em São Paulo tinha tudo para ser uma reunião de saudosistas da década de 90: o público era formado basicamente por roqueiros na casa dos trinta e poucos anos que acompanhavam os clipes do grupo pelo extinto programa Lado B, da MTV.
A emissora estava devidamente representada no local do show por dois logotipos luminosos fixados nas paredes e, como se não bastasse, volta e meia era anunciado no microfone que o evento era um oferecimento da MTV.
Além disso, não era difícil ver na platéia os ex-VJs Gastão Moreira e Fabio Massari circulando e conversando com amigos. Estes fatores poderiam criar um clima ‘baile da saudade’ que se torna cada vez mais típico em apresentações de bandas gringas em solo brasileiro. O país virou uma mina de ouro para grupos recém-reformados para apresentações quase cadavéricas e calcadas em hits para fãs que buscam recuperar o tempo perdido. Mas este não foi o caso de Jon Spencer e cia.
A banda subiu ao palco por volta das 23h30, e a apresentação contrastou totalmente com o clima almofadinha do Bourbon Street – a casa está acostumada a receber shows de artistas ‘comportados’ de jazz ou blues. Mas a atração da noite provou que a característica ‘blues’ é mais marcante somente no nome, fazendo um show de rock ‘n’ roll frenético.
Seguindo a receita do início da carreira dos Ramones – show relâmpago em um ritmo incessante para deixar os fãs atordoados –, o Jon Spencer Blues Explosion fez uma apresentação tão urgente que às vezes era difícil saber ao certo qual música estava sendo tocada. Ao final de uma canção, outra era emendada quase que instantaneamente. No final das contas, o que se pôde ver e ouvir foi uma sucessão de medleys, como se a banda tivesse imposto o desafio de tocar o maior número de músicas possível. Em certa altura do show, lembro de olhar para o relógio e verificar que havia se passado apenas 30 minutos desde o início da apresentação, mas parecia que Jon Spencer e seus comparsas já tinham tocado pelo menos 15 números.
Era impressionante a massa sonora que duas guitarras e uma bateria faziam no palco, combinadas em alguns momentos com gaitas, e um theremin colocado estrategicamente no canto direito do palco. O performático vocalista abusava de seus trejeitos – que oscilam em torno de uma mistura de Elvis, Mick Jagger e Iggy Pop empunhando uma guitarra – e o baterista Russel Simins tocava como se sua vida dependesse da intensidade de suas batidas com as baquetas. Até mesmo o guitarrista Judah Bauer, conhecido por ter uma performance mais reservada, também não ficou parado ao tocar solos que fundem garage rock com blues, funk tradicional e punk rock.
Depois de passar por porradas como “Dang!”, “Fuck Shit Up”, “Blues X Man” e “Money Rock N Roll”, a banda saiu de palco deixando um som irritante de theremin para sacanear a audição do público. Um tempo depois, a banda voltou para um bis matador, emendando “Son of Sam”, “Wail”, “She Said” e “Bellbottoms”. Ao final da apresentação, só restava à plateia pegar uma cerveja no bar antes de voltar para casa com um sorriso no rosto e um zumbido no ouvido.
O show de Jon Spencer Blues Explosion na última quinta-feira (28/07) em São Paulo tinha tudo para ser uma reunião de saudosistas da década de 90: o público era formado basicamente por roqueiros na casa dos trinta e poucos anos que acompanhavam os clipes do grupo pelo extinto programa Lado B, da MTV.
A emissora estava devidamente representada no local do show por dois logotipos luminosos fixados nas paredes e, como se não bastasse, volta e meia era anunciado no microfone que o evento era um oferecimento da MTV.
Além disso, não era difícil ver na platéia os ex-VJs Gastão Moreira e Fabio Massari circulando e conversando com amigos. Estes fatores poderiam criar um clima ‘baile da saudade’ que se torna cada vez mais típico em apresentações de bandas gringas em solo brasileiro. O país virou uma mina de ouro para grupos recém-reformados para apresentações quase cadavéricas e calcadas em hits para fãs que buscam recuperar o tempo perdido. Mas este não foi o caso de Jon Spencer e cia.
A banda subiu ao palco por volta das 23h30, e a apresentação contrastou totalmente com o clima almofadinha do Bourbon Street – a casa está acostumada a receber shows de artistas ‘comportados’ de jazz ou blues. Mas a atração da noite provou que a característica ‘blues’ é mais marcante somente no nome, fazendo um show de rock ‘n’ roll frenético.
Seguindo a receita do início da carreira dos Ramones – show relâmpago em um ritmo incessante para deixar os fãs atordoados –, o Jon Spencer Blues Explosion fez uma apresentação tão urgente que às vezes era difícil saber ao certo qual música estava sendo tocada. Ao final de uma canção, outra era emendada quase que instantaneamente. No final das contas, o que se pôde ver e ouvir foi uma sucessão de medleys, como se a banda tivesse imposto o desafio de tocar o maior número de músicas possível. Em certa altura do show, lembro de olhar para o relógio e verificar que havia se passado apenas 30 minutos desde o início da apresentação, mas parecia que Jon Spencer e seus comparsas já tinham tocado pelo menos 15 números.
Era impressionante a massa sonora que duas guitarras e uma bateria faziam no palco, combinadas em alguns momentos com gaitas, e um theremin colocado estrategicamente no canto direito do palco. O performático vocalista abusava de seus trejeitos – que oscilam em torno de uma mistura de Elvis, Mick Jagger e Iggy Pop empunhando uma guitarra – e o baterista Russel Simins tocava como se sua vida dependesse da intensidade de suas batidas com as baquetas. Até mesmo o guitarrista Judah Bauer, conhecido por ter uma performance mais reservada, também não ficou parado ao tocar solos que fundem garage rock com blues, funk tradicional e punk rock.
Depois de passar por porradas como “Dang!”, “Fuck Shit Up”, “Blues X Man” e “Money Rock N Roll”, a banda saiu de palco deixando um som irritante de theremin para sacanear a audição do público. Um tempo depois, a banda voltou para um bis matador, emendando “Son of Sam”, “Wail”, “She Said” e “Bellbottoms”. Ao final da apresentação, só restava à plateia pegar uma cerveja no bar antes de voltar para casa com um sorriso no rosto e um zumbido no ouvido.
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segunda-feira, 18 de abril de 2011
Tiê vai da melancolia ao country em novo show
Apesar do pouco tempo de carreira – o primeiro disco Sweet Jardim foi lançado em 2009 -, a cantora Tiê já arrebanhou um séquito considerável de fãs que vai além do underground paulistano. Com o Auditório Ibirapuera lotado na sexta-feira (dia 8), o repertório do show de lançamento de seu novo disco, O Coração e a Coruja, foi da melancolia à vivacidade country.
Se Sweet Jardim era calcado quase que inteiramente em arranjos minimalistas de violão e piano de Tiê com detalhes do produtor e multi-instrumentista Plínio Profeta, o novo álbum apresenta uma nova direção, com a introdução de elementos como bateria, guitarras, baixo, violoncelos, clarinetes, acordeon e participações de Tulipa Ruiz, Thiago Pethit, Hélio Flanders (Vanguart), Jorge Drexler, Jessé Sadoc e Marcelo Jeneci.
No show de estreia, Tiê foi acompanhada por banda composta por seu irmão Gianni Dias (baixo e vocais), Naná Rizinni (bateria), André Henrique (violão), Ana Eliza e Luciana Rosa (violoncelos e clarinete), Karina Zeviani (backing vocal, que já tocou com Thievery Corporation e Nouvelle Vague), além da presença de Plínio Profeta nas guitarras. O guitarrista, que também fez a direção musical do espetáculo, manteve os olhares voltados para os outros músicos, dando deixas sutis nas passagens entre as partes das canções.
Começando o show com "Na Varanda Da Liz", faixa composta por João Cavalcanti (do grupo Casuarina), a cantora demonstrou timidez no início, talvez fruto de nervosismo ao apresentar as novas músicas ao público. Mas a partir da versão mais cadenciada de "Só Sei Dançar Com Você" de Tulipa Ruiz, Tiê foi se soltando aos poucos, fazendo comentários espontâneos entre as canções.
Ainda que o novo trabalho seja permeado de participações especiais, Thiago Pethit foi o único convidado a subir no palco (além de Karina Zeviani dividindo os vocais em "Já É Tarde"), para fazer um dueto em "Mapa Mundi". Mesmo que as músicas novas apresentem arranjos mais alegres em comparação ao álbum anterior, o show teve momentos melancólicos, como em "Te Mereço" (que pode ser considerada uma música-irmã de "Te Valorizo") e "Perto e Distante", com Gianni Dias fazendo as vezes de "Jorge Drexler do Paraguai", segundo a própria Tiê.
Durante "Passarinho", já conhecida do álbum anterior, os músicos fizeram um intervalo e deram espaço para que Tiê e Plínio executassem a canção usando apenas violão e notas sutis na guitarra, da mesma forma crua que eram realizados os shows da primeira turnê. O momento intimista foi adornado com uma surpresa: a parte traseira do palco do auditório se abriu, dando uma visão noturna do Parque Ibirapuera. O momento mais emocionante do show foi devidamente recebido pela platéia com palmas calorosas.
Após a parte serena da performance, Tiê costurou uma sequência inclinada ao country, tocando "Pra Alegrar O Meu Dia", "Já É Tarde" e "Hide And Seek", marcando a porção mais vigorosa do show. O público demonstrou a mesma empolgação quando surgiu a improvável "Você Não Vale Nada" de Dorgival Dantas – sim, aquela música insuportável que o Calcinha Preta fez virar trilha de novela da Globo -, em uma versão com violões quase flamencos.
A combinação "interpretação sem vocais exagerados + carisma quase ingênuo" da artista paulistana cativa o público, independentemente da canção que está sendo tocada. "Chá Verde" sinalizou o final da apresentação, que ainda teve "Assinado Eu" e "Na Varanda Da Liz", tocada novamente para fechar o bis em um clima "pra cima".
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Iniciando os trabalhos
Por pura e simples preguiça resolvi não fazer um texto introdutório para o blog desta vez. Resolvi apelar para um registro de uma noite que vai ficar para sempre gravada na minha lembrança como uma das coisas mais fodas que já realizei na minha vida.
PS: Sim, o "CARALHO!" ali é meu.
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